quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (020)

As prisioneiras da ilha do diabo (1981)
Direção: Agenor Alves


Como já foi dito aqui no Insensatez, o baiano radicado em São Paulo Agenor Alves fez história no cinema brasileiro. Afinal é, até hoje, o cineasta negro que mais dirigiu longas: sete. São eles: Tráfico de fêmeas (1978), Noite de orgia (1980), A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem lei (1981), As prisioneiras da ilha do diabo (1981), A cafetina de meninas virgens – O kapanga (1982, codireção de Guilermo Vera), Lídia e seu primeiro amante (1982), Eu matei o Rei da Boca (1987). Alves trafegou pelo cinema de aventura, pelo faroeste, pelo policial, e pelo erótico.


Em As prisioneiras da ilha do diabo, um grupo de quatro manequins é arrastado pelos magnatas babões da plateia de um desfile para um passeio de iate no Guarujá. Elas, claro, topam, e algumas já vão entrando no barco e se desfazendo logo das roupas. O que o grupo nem imagina é que, ao mesmo tempo, um bando de foragidos da prisão circula pelo pedaço, e ao correrem da polícia invadem o barco, faz todos de reféns e leva todo mundo para a tal Ilha do Diabo. É lá que um dos bandidões vai se apaixonar perdidamente por uma das sequestradas, mudando o destino de todos eles. Há nos filmes de Agenor Alves – pelo menos o visto até aqui – um genuíno interesse pelo cinema de gênero. Nesse As prisioneiras ele, inclusive, se escalou como o protagonista, o tal bandidão de alma romântica. Os problemas de seu cinema são os roteiros manjados – também assinados por ele -, e a direção claudicante. E como é Boca do Lixo, dá-lhe moçoilas peladas, na maioria das vezes gratuitamente e em cenas esdrúxulas para situá-las no contexto da história.  Há ainda algumas soluções inacreditáveis, como aqui. Exemplo? Os ex-presidiários, escrotos até mandar parar, passaram tempos trancafiados, daí o natural não seria eles traçarem logo aquelas meninas seminuas ali disponíveis? Seria, né? Só que eles antes conversam, comem, tiram um cochilo, e só depois parecem se lembrar da secura sexual.Outra coisa: Alves parece ter fixação em trilha sonora, pois não há cena em que um instrumental não pontue o mostrado, em efeito paradoxalmente contrário, pois xaropetizante, à narrativa. Depois de assistir ao faroeste A volta de Jerônimo e essa aventura mezzo policial mezzo erótica, ainda faltam cinco filmes a conferir e daí ver, realmente, o que foi o cinema de Agenor Alves dentro da Boca do Lixo.
Obs.: esse cartaz, para o lançamento em vídeo, não condiz com cena do filme, mas foi a única imagem que encontrei para ilustrar a postagem.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (019)

Os deuses e os mortos (1971)
Direção: Ruy Guerra


O Cinema Novo, página importante da história do cinema brasileiro, propunha-se a realização de filmes com forte acento político e social - fossem rurais (primeira fase) ou urbanos (segunda fase) - e com propostas conscientizadoras. Reuniu cineastas como Glauber Rocha, Paulo Cesar Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Carlos Diegues, em inquestionáveis obras-primas como Deus e o diabo na terra do sol (1963), de Glauber, Os fuzis (163), de Guerra, e O padre e a moça (1965), de Joaquim. O mestre Nelson Pereira dos Santos dirigiu um dos maiores do período, Vidas secas (1963) - ainda que há alguns anos tenha dito que ele, Nelson, não era Cinema Novo. Com o endurecimento da ditadura civil-militar pós AI-5, em 1968, muitos se exilaram e outros partiram para filmes mais herméticos e alegóricos, como Ruy Guerra em Os deuses e os mortos (1970).


Em Os deuses e os mortos, coronéis do cacau no nordeste – Jorge Chaia e Rui Polanah - se digladiam pelo poder, o que custa baixas de cada lado em um crescendo incontrolável. Enquanto essa guerra se trava, um estranho homem, Othon Bastos, busca seu lugar nesse reinado, em meio a personagens como a esposa de um dos coronéis e seu desejo de posse – Norma Bengell; uma camponesa justiceira – Ítala Nadi; um dos capangas em conflito – Nelson Xavier; uma prostituta dona de zona – Mara Rúbia; e uma louca grávida que perambula pelas terras dos senhorios – Dina Sfat. Os deuses e os mortos é filme super premiado – no Festival de Brasília arrebatou Melhor Filme, Direção, Ator (Bastos), Atriz (Dina Sfat), Cenografia e Trilha Sonora -, mas ainda assim é um dos menos comentados, e talvez menos vistos, do Cinema Novo. O roteiro e os diálogos são assinados por Ruy, Flávio Império e Paulo José – também um dos produtores do filme – que não facilitam a vida do público, nem o de ontem e nem o de hoje. O filme tem encenação poderosa, mas aposta alto em teor alegórico, o que não o torna de fácil digestão, ainda que, como imagem, impressione. Em seu misto de biografia e autobiografia – assinada por ela e Mara Caballero -, Dina Sfat, que estava realmente grávida durante as filmagens, registra: “- Participo do filme, faço o papel de uma louca grávida, passo alguns dias em Ilhéus, chego a pensar que a minha criança vai nascer em pleno cacau. No fim de tudo ganho um prêmio e uma música de Milton Nascimento, “Cravo e Canela”. Mas o filme, Os deuses e os mortos, é um modelo de produção descontrolada. Gasta-se muitíssimo, Rui Guerra cria, Paulo José não sabe de onde arrancar dinheiro e pede emprestado até ao Mazzaropi. Quando a coisa se encerra, devemos 450 milhões de cruzeiros; eu ganho 3 milhões, o Paulo José, 12 milhões”. Os deuses e os mortos tem trilha de Milton Nascimento, que também faz ponta como ator.

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (018)

Alô?! (1998)
Direção: Mara Mourão


Não sei todos sabem, mas até a década de 1960 tínhamos menos de 10 diretoras de longa-metragem no Brasil. Com as conquistas sociais e sexuais dos anos 60 e 70, a situação foi se modificando e a partir daí outras mulheres conseguiram chegar ao formato. Agora o boom mesmo se deu com o chamado Cinema da Retomada, a partir de 1995, e que teve exatamente pelas mãos de uma mulher, Carla Camurati, seu marco definidor. Muitos nomes talentosos dos curtas migraram para o longa e nossa cinematografia foi enriquecida por gente de altíssimo quilate como Tata Amaral e Eliane Caffé. Hoje esse número acumulativo já soma mais de 250 cineastas pilotando longas dos mais diferentes gêneros.  E dentre elas está a carioca radicada em São Paulo, Mara Mourão.


Em Alô?! (1998) acompanhamos uma turma de trambiqueiros do cotidiano: o casal formado pelo especulador imobiliário Herbert Richers Jr e sua esposa dona de butique Betty Lago; a empregada doméstica deles Myriam Muniz e o irmão dela e trapaceiro Wellington Nogueira. Richers Jr está às voltas com um negócio milionário de compra e revenda de terra. Lago copia os modelos de grifes famosas para vender na sua loja, enquanto sonega impostos e compra fiscais. Muniz arruma emprego no prédio para colegas e cobra delas comissão, expediente estendido para os feirantes, já que leva suas “meninas” para comprarem nas mãos deles. E Nogueira vende pedra em embalagem de videocassete, orégano por erva medicinal, afana cartões de créditos, e outros delitos do naipe. A comédia, que tem roteiro assinado por Mourão e Nogueira, casados na época – e não sei se ainda hoje -, imprime um ritmo esperto sobre o famoso jeitinho brasileiro, em que cada um quer passar a perna no outro – e daí tanto faz se é marido e esposa, irmão e irmã, mãe e filho, patrão e empregado, amigo e amigo. O filme marcou a volta ao cinema da saudosa Myriam Muniz, que estava há quinze anos afastada dos longas - seu trabalho lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de São Vicente; o filme foi o vencedor também de Melhor Direção no Festival de Cuiabá. Mara Mourão apresentou timing para a comédia nesse Alô?!, ainda que depois dele intercalasse filme do gênero como  o rotineiro Avassaladoras (2002) com documentários premiados e saudados pela crítica, Doutores da alegria (2005) e Quem se importa (2012). Em Alô?! podemos matar saudades de Betty Lago, falecida precocemente aos 60 anos, e, sobretudo, conferir os talentos de Herbert Richers Jr e Wellington Nogueira, ótimos e impagáveis em seus personagens.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (017)

Perdido em Sodoma (1982)
Direção: Nilton Nascimento


Se alguém ainda duvida de que havia algum tema, algum assunto, algum acontecimento - seja cotidiano de qualquer página de jornal ou histórico - que não fosse interessar aos produtores e diretores da Boca do Lixo está muito enganado. E vem muito daí o fascínio que aquele polo de produção paulista das décadas de 1970 e 80 exerce até hoje.  Afinal, onde já se viu um pedaço que agregasse tantos gêneros e subgêneros com os mais diferentes argumentos e roteiros? E, ainda, com diretores das mais diferentes linhagens e quilates? Por isso, nada de novo no front a Boca ter trazido para as telas sua visão de Sodoma e Gomorra. Aliás, até bastante coerente, né? Mas não pense que a visão sobre as cidades amaldiçoadas e condenadas à destruição pela ira de Deus por causa de seus pecados se restringiu, pela lente da Boca, apenas as babeis bíblicas não. Aqui é a própria São Paulo e o Rio de Janeiro, com seus inferninhos e infernões, que reencarnaram a perdição incontrolável bíblica. Bom, estamos falando de Perdida em Sodoma (1983), de Nilton Nascimento.


Em Perdida em Sodoma Nicole Puzzi é Marlene, uma jovem do interior que chega a São Paulo em busca do pai rico que lhe manda mesada, mas não conhece; e da mãe que a abandonou ainda criancinha. Depois do encontro ríspido com o pai, Marlene perambulará pela noite de São Paulo e do Rio de Janeiro pelas mãos do cafetão Nassif  em busca do paradeiro da mãe, veterana cantora da noite de canções italianas e prostituta. Daí, trafega por boates com shows de striptease e de sexo, casas de encontro e antros de prostituição. Tá aí a reencarnação dos pecados da Sodoma do título. O filme começa na própria Sodoma, com direito a Zilda Mayo de Pitonisa e tudo - e com cena de sexo explícito, aparentemente enxertada; outras acontecerão durante a trama. Depois desse prólogo, a trama se situa em São Paulo e, mais adiante, no Rio de Janeiro. Daí, a gente já fica imaginando o que motivou atores como José Lewgoy e, sobretudo, Juca de Oliveira, embarcarem nessa canoa. Ok, o explícito pode ter vindo depois, mas Juca, por exemplo, protagoniza cena pra lá de patética em uma boate, algo como um sub-sub-Rio Babilônia (1982), de Neville D´Almeida. O filme tem como principal destaque a façanha de ter reunido muitas musas da Boca – a protagonista Puzzi, pra variar lindíssima; mais Aldine Müller, Zilda Mayo, Sílvia Gless, Maristela Moreno, Tânia Gomide, Lia Furlin, Noelle Pinne, e ainda a carioca Alcione Mazzeo.  Só que se transformou em mezzo pornochanchada mezzo pornô  sem um décimo do talento dos verdadeiros realizadores do gênero. No caso aqui, dirigida pelo gaúcho radicado em solo paulista Nilton Nascimento, que foi de trajetória cinematográfica de interesse neo-realista até cair de boca no filão pornográfico como produtor dos filmes do filho, Carlos Nascimento, que assina a fotografia desse Perdida em Sodoma.

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (016)

Permanência (2014)
Direção: Leonardo Lacca


Falar da importância do cinema de Pernambuco hoje é chover no molhado. Há muito, crítica e público voltam os olhos para o estado, sobretudo para Recife, polo de produção que se impôs para todo o país pela qualidade de seus realizadores e filmes. São muitos os nomes: Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Kleber Mendonça, Daniel Aragão, Gabriel Mascaro. E também, Leonardo Lacca. Diretor de vários curtas, como Interferência (2004), Ela morava na frente do cinema (2011), Décimo segundo (2007), e Ventilador (2015), Permanência (2014) é sua estreia em longa-metragem. O filme recebeu cinco prêmios no Cine PE, Festival de Recife: Melhor Filme, Atriz (Rita Carelli), Atriz Coadjuvante (Laila Pas), Ator Coadjuvante (Genézio de Barros) e Direção de Arte.


Em Permanência Irandhir Santos é um fotógrafo que sai do Recife para a abertura de sua primeira exposição individual em São Paulo. Daí, hospeda-se na casa de sua ex-namorada, Rita Carelli, agora casada com Sílvio Restiffe. Esse reencontro afetará os sentimentos de todos esses personagens. Em seu primeiro longa, Leonardo Lacca aposta muito mais no mundo interior de cada personagem do que em qualquer outro tipo de ação externa. Elas até acontecem, mas são miúdas. Só que de miúdas não tem nada as entrelinhas e os subtextos pelos quais a trama e aquelas pessoas trafegam. Em um primeiro momento poderia se pensar em sentimentos internos que estão submetidos apenas a acontecimentos pretéritos, mas aos poucos vamos percebendo que o externo também se impõe, principalmente pelo novo estado de coisas: há um novo casal e o protagonista está alijado dessa história; há o momento da primeira exposição, em metáfora paradoxal, já que o personagem não parece nem um pouco à vontade de se mostrar; há o relacionamento com o pai amoroso, Genézio de Barros, mas que não o assume para a família oficial; há o breve envolvimento com a bela assistente da galeria, Laila Pas; e há o deslocamento da Recife natal e a impessoalidade da megalópole São Paulo. Em determinado momento, a dona da galeria, Sabrina Greve, diz para o fotógrafo que “menos é mais”. E parece ser nisso que Lacca acredita, pelo menos para tecer a teia desse reencontro, que se revela mais pelo não dito e pelas informações negadas ao espectador por inteiro, ainda que sempre sugeridas ou deixadas aqui e acolá como pistas. Incomoda o fato da nudez das atrizes, inclusive frontal, enquanto o protagonista é poupado. Poderia até ser uma leitura para mais uma recusa paradoxal em relação ao fotógrafo que está para "se mostrar" em exposição para o público, mas o desconforto com essa opção estética se impõe. Só depois de assistir esse Permanência é que fui saber que ele é uma retomada da história e dos personagem do curta do cineasta, Décimo segundo - vale a pena assistir também ao curta para ver se o tal pretérito dos personagens será revelado ou se as tais mais informações continuarão "escondidas" pelo roteiro.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (015)

A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem lei (1981)
Direção: Agenor Alves



O baiano radicado em São Paulo Agenor Alves fez história. Afinal, é o cineasta negro que, até agora, mais dirigiu longas no cinema brasileiro, só perdendo para o pioneiro Cajado Filho, carioca que nas décadas de 1940 e 50 dirigiu cinco. Agenor Alves subiu ao pódio em lugar mais alto, pois dirigiu sete: Tráfico de fêmeas (1978), Noite de orgia (1980), A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem lei (1981), As prisioneiras da ilha do diabo (1981), A cafetina de meninas virgens – O kapanga (1982, codireção de Guilermo Vera), Lídia e seu primeiro amante (1982), Eu matei o Rei da Boca (1987). Depois de atuar, estreia como cineasta em Tráfico de fêmeas, e a partir daí dirige filmes eróticos, aventura e policial.


Em A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem lei nosso herói, Antônio Fonzar, acabou de chegar da cidade com a esposa a tiracolo, Fátima Celibrini, para a lua de mel em sua fazenda. Só que a moça resolve passear pelas terras, encontra uma gangue de bandidos, que a estupra e mata. Os ladrões estavam a caminho de um golpe no fazendeiro vizinho de Jerônimo, chefiados pelo homem de confiança do ingênuo patrão, Hélio Souto na pele de um cigano, que foi entregar o gado em um matadouro, mas com a intenção de botar a mão na grana e dividi-la com seus comparsas. Com isso, Jerônimo sai no encalço deles para vingar a morte da esposa, acompanhado do fazendeiro e amigos da região, que tentam reaver o dinheiro e também fazer justiça. Aqui nesse filme é melhor esquecer Cerro Bravo, Moleque Saci, Aninha, e todo aquele ar juvenil do seriado da Tupi – para quem é da época – de Jerônimo, o herói do sertão (1972/73), protagonizado por Francisco di Franco e Canarinho – e mesmo o longa homônimo dirigido por C. Adolpho Chandler em 72. Pois imagina se um dia algum espectador da época iria imaginar Jerônimo todo dengoso na cama com a esposa – que não é sua mítica noiva Aninha do seriado e do primeiro longa-, em filme com cenas de sexo e salpicado de nudez dos mais diferentes quilates? O argumento e o roteiro são assinados pelo próprio Agenor Alves, mas o que ele fez mesmo foi se apossar, do seu jeito. do lendário herói do campo para fazer um filme de aventura sim, mas, como é produção da Boca do Lixo, aproveitar cada situação para tirar a roupa das moçoilas – e aí vale tanto uma cena esdrúxula na zona da cidade ou até as bem filmadas cenas de sexo entre Fonzar e Celebrini, e também entre Souto e sua parceria. Aliás, os grandes destaques são a câmera e a fotografia espetacular de Pio Zamuner, realmente um mestre na captação daquele universo rural – pena que a trilha sonora onipresente fique o tempo todo querendo destruir o mostrado, já que não se cala um só momento. Esse filme é um exemplo inconteste de como todo o universo possível de gênero e subgênero, trama e situações, foi reapropriado pelos produtores e diretores da Boca do Lixo. Mesmo que na cara dura como foi nesse A volta de Jerônimo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (014)

Jerônimo, o herói do sertão (1972)
Direção: C. Adolpho Chadler



É praticamente impossível para quem foi criança e adolescente no início da década de 1970 e espectador da Rede Tupi não ter acompanhado as aventuras de um intrépido e corajoso justiceiro de moral ilibada na série Jerônimo, o herói do sertão (1972/73). Mais difícil ainda esquecer Francisco di Franco, em seu porte viril, como o protagonista, e seu parceiro Moleque Saci, interpretado com gaiatice por Canarinho – e mais a heroína Aninha (Eva Christian). Na verdade, a saga do cavaleiro que enfrentava um temido coronel e seus capangas na cidadezinha de Cerro Bravo já havia conquistado muitos na década de 50, na radionovela homônima interpretada por Milton Rangel. Em 1984, o SBT tentou ressuscitar o herói na novela Jerônimo, também protagonizada por Di Franco, com Eduardo Silva como o moleque e Susy Camacho como Aninha, mas não repetiu o sucesso. E é esse herói do campo que o cineasta carioca C Adolpho Chadler levou para as telas do cinema também em 1972.


Em Jerônimo, o herói do sertão nosso cavaleiro destemido e seu parceiro Moleque Saci são chamados pelo delegado e por um empresário para recuperarem um grande diamante, o Rainha do Sul, roubado por um bando de criminosos. A trilha vai levar a dupla até a fazenda da velha Tabarra e seus filhos, que em um primeiro momento se apresenta como uma bondosa mãe de família, para depois se revelar como uma vilã implacável. O que Jerônimo nem imaginava é que sua noiva Aninha viria em seu encalço e se tornaria refém dos bandidos. Se na televisão, lá nos idos de 70, a saga de Jerônimo já era vista por espectadores mirins como eu como um tanto infantilizada, imagine a impressão assistindo a esse filme da mesma época? Pois C. Adolpho Chadler levou para as telas o universo criado nos anos 50 por Moysés Weltman, que assina o argumento e o roteiro do filme, sem injetar adrenalina necessária tanto na trama quanto na direção. Também ator, ele mesmo encarna o herói, ao lado de Osório Polico como o Moleque Saci e Elizabeth Baker – ao que parce filha de Adolpho, pois consta em registros com Elizabeth Chadler – como Aninha. O grande destaque mesmo é Yara Cortes, que surpreenderia com sua perfeita vilã em A rainha diaba (1971), de Antônio Carlos da Fontoura – em contraposição a inúmeros personagens de mãezona nas novelas de TV -, vivendo aqui também uma daquelas vilãs implacáveis e sanguinárias de faroeste com toda a pompa. A cena em que ela se despe do vestido de chita e rendinhas de velhinha amorosa para revelar a calça comprida, botas e revólver na cintura é impagável. Outro destaque no elenco é a beleza de Marly de Fátima, como a a rebelde e única filha do bando, uma das musas do cinema popular. Pena que Chadler, que se deu tão bém como diretor no policial de espionagem Os carrascos estão entre nós (1968), tenha demonstrado aqui mão tão frouxa para um filme que poderia ter sido um vigoroso representante do cinema brasileiro de aventuras.