quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (289)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

289 - Corpo em Delito (1989), de Nuno César Abreu **

Os anos de chumbo da ditadura militar são o cenário desse Corpo em Delito, filme de estreia do paulista Nuno César Abreu em longa-metragem. Mas é bom dizer que o cenário aqui não é apenas como pano de fundo, mas como o próprio objeto da trama. Isso a partir da história de Lima Duarte, um médico legista a serviço do estado opressor. A função de Lima é fazer a autópsia em cadáveres de presos políticos barbaramente torturados e depois forjar laudos de morte natural ou por qualquer doença. Vez ou outra , inclusive, aplica injeção durante os intervalos de sessão de tortura para que a vítima não morra antes de abrir o bico. Em conversas com o militar manda-chuva da bárbarie Fernando Amaral ele até faz discurso contra a violência, mas cumpre seu dever sem pestanejar. Quando se aposenta, resolve cuidar das memórias do pai, um militar recém falecido, e, ao mesmo tempo, relaciona-se de forma diversa com três mulheres: a filha Dedina Bernadelli, militante política de quem se mantinha afastado; a namorada Regina Dourado, fogosa artista de boate; e Dira Paes, a misteriosa e solar vizinha de sua casa de praia. Corpo em Delito fala de um momento histórico terrível do Brasil de uma forma original ao fazer de um personagem que cumpre seu dever de forma criminosa, mas sem embates morais, o protagonista da cena. Mas ainda que o argumento seja bom - de Sérgio Villela, que assina o roteiro junto com Nuno - o filme resulta um tanto atravancado. Há, como em muitas produções sobre o período, uma certa deficiência nos diálogos, que em alguns momentos soam como discurso e tiram a naturalidade do dito - aqui, mais notadamente no personagem do militar. O caso entre Lima e Regina, a amante extrovertida e mística - chega a procurar candomblé para dar jeito na relação - também não funciona muito organicamente; em entrevista ao site Mulheres do Cinema Brasileiro, Regina disse que esse foi um filme difícil de fazer, pois teve que se expor muito. Os momentos com a filha são frágeis dramaturgicamente, já nas sequências em que ele observa o jovem casal de vizinhos, sobretudo Dira Paes - aqui em um de seus primeiros filmes e já arrebatando o olhar da câmera -, a ambiência se instala com mais naturalidade e seduz quem está do lado de cá. Só que isso é muito pouco para o fôlego pretendido da história, ainda que o Festival de Natal não tenha achado assim e contemplado Corpo em Delito com seis prêmios - Melhor Diretor pelo Júri da Crítica; Melhor Filme; Melhor Ator para Lima Duarte; Melhor Roteiro para Sergio Villela e Nuno César Abreu; e Revelação para Dedina Bernardelli.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (288)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

288 - As Armas (1969) , de Astolfo Araújo ***

obs.: não consegui imagem do filme

O paulista Astolfo Araújo é mais um desses cineastas injustamente pouco comentados. Sócio de Rubem Biáfora na Data Cinematográfica, que produziu filmes de ambos, Astolfo foi casado com a atriz Joana Fomm, com quem fez As Gatinhas (1970) e Fora das Grades (1971). Esse As Armas é seu longa de estreia e foi produzido pelos papas da Boca Lixo Alfredo Palácios e Antonio Polo Galante. O argumento é dele e de Biáfora, já o roteiro assina sozinho. Na trama, Mário Benvenutti (foto) integra um grupo revolucionário como chofer do líder Cavagnole Neto, mas sempre descontente com sua função por ser mantido à margem das decisões e também por ser tratado como um simples funcionário, quado na verdade tem papel importante ao trasportar documentos sigilosos e perigosos. O grupo é formado ainda por Francisco Cúrcio, Pedro Stepanenko e Irene Stefãnia - essa última filha do chefe e noiva de Pedro, e por quem Benvenutti cresce o olho. Em angústia com seus mais de 35 anos e ainda sem casa para morar - não acredita nas promessas do BNH - ele está muito mais interessado nos seus desejos burgueses do que em qualquer luta por mudanças políticas no país. Esse desejo individual vai entrar em choque com o desejo coletivo - mesmo que esse também pareça ambíguo -, resultando em reviravoltas no seu destino e no dos integrantes da organização. Como em Fora das Grades, filme posterior, esse As Armas tem também estrutura seca, econômica, e sem delírios psicologizantes. E também como no anterior, a questão política está enraizada nos desatinos de seus personagens. Em alguns momentos, o César de Mário Benvenutti parece um pouco o Sérgio Hingst de O Quarto (1968), de seu parceiro Biáfora, ainda que a apatia de Hingst não encontre eco nas ações de Benevenutti - mas algumas semelhanças, como nos encontros com prostitutas nos dois filmes se fazem notar; lá, Hingst quer beijo na boca, aqui, Benevenutti exige, ainda que sem sucesso. Com bela fotografia p&b de Waldemar Lima, As Armas é produção corajosa, pois foi rodada durante a ditadura militar, valendo a Menção Honrosa para o cineasta no Prêmio Governador do Estado de São Paulo 1969. Como nos filmes de Walter Hugo Khouri, Mário Benvenutti é escalação acertada como protagonista, pois consegue encarnar uma certa virilidade claudicante aliada aos tormentos e angústia da alma - mesmo que esses tormentos e angústias se alojem em questões práticas, como é o caso de seu César aqui, um homem em busca de ascensão burguesa. Cúrcio e Neto, atores frequentes nas produções da Boca, dão veracidade aos seus personagens; já Irene Stefânia mais uma vez demonstra, com seu talento e sua beleza translúcida, porque foi uma das musas mais amadas de nosso cinema.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (163)


Yvonne de Carlo.





Nu!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (287)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

287 - O Sol do Meio Dia (2009), de Eliane Caffé ***1/2

Como se sabe, com o Cinema da Retomada o número de diretoras de longas aumentou em dezenas. Agora, se há um lugar garantido entre as cinco mais talentosas, esse lugar é de Eliane Caffé. Depois do interessante Kenoma (1998) - sua estreia no formato -, ela realizou o ótimo Narradores de Javé (2002), um dos filmes mais memoráveis da década, mas injustamente subestimado e pouco comentado. Agora, Lili - como é chamada - traz à cena esse O Sol do meio dia - que salvo engano chegou a se chamar Andar às Vozes, o que era coerente com os títulos estranhos que ela escolhe para seus rebentos. No filme, a trama junta dois homens de origens diversas e destinos em comum: Chico Diaz herdou o barco e os negócios escusos de contrabando com a morte do pai e é encoxado por gangue perigosa que está no negócio; já Luiz Carlos Vasconcelos acabou de sair da cadeia, tem pesadelos que o atormetam e procura um lugar para si. Os dois acabam se encontrando quando Vanconcelos pede emprego para Diaz, eles seguem o rio para buscar uma encomenda, e no caminho encontram Cláudia Assunção. Mãe de uma jovem que larga a família para se tornar prostituta, Assunção despertará o interesse de Diaz mas ficará balançada mesmo é por Vasconcelos. O Sol do meio dia tem como foco personagens em abordagem à margem de muitas lentes por aí: são rudes, são pobres, não têm beleza padrão - o Matuim de Chico Diaz até tenta dribrá-la com uma peruca. Aqui não interessa o universo violento em que podem estar metidos ou mesmo as questões adversas oriundas desse estrato. O que interessa no roteiro de Eliane Caffé e Luiz Alberto de Abreu não é nem de onde vieram esses personagens - ainda que são sinalizados e têm importância em suas contruções pscológicas, como o negócio do barco, a cadeia e a relação de Assunção com o pai Ary Fontoura; ou para onde vão. O que há de relevante e em nervo central é o que eles são agora, onde e como estão agora, e o choque de suas emoções e percepções nesse momento. É possível a redenção pelo amor? É possível mascarar por gaiatice ou introspecção a solidão ou a falta de rumo? É possível ter um lugar menos ordinário no mundo? O Sol do meio dia brilha, em morte e em vida, é por aí. No elenco, o talento comprovadíssimo de Luiz Carlos Vansconcelos e Chico Diaz, ambos premiados como Melhor Ator no Festival do Rio - Lili Caffé já havia trabalhado com o irmão do segundo, Enrique Diaz, em Kenoma. Aqui, eles encontram ótima sintonia com a mineira Claudia Asunção, uma belíssima estreia no cinema de uma atriz que promete dar muito o que falar.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

domingo, 26 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (286)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

286 - Aventuras d´um Destetive Português (1975), de Stefan Wohl +

Nascido na Aústria e radicado no Brasil, Stefan Wohl desempenhou várias funções no cinema brasileiro mas como cineasta dirigiu apenas dois longas e um episódio de um outro - segmento Jovem Retaguarda em Quatro Contra o Mundo (1970). Mas se no primeiro, o delicioso O Donzelo (1971), acertou em quase tudo, nesse Aventuras d´um Detetive Português errou feio a mão. Na trama dessa comédia com pitadas surrealistas, um elevador desaparece de um prédio em Portugal com seus ocupantes dentro, e Raul Solnado, um faxineiro alçado inesperadamente a detetive, corre para lá e para cá para descobrir seu paradeiro. O tal elevador acaba aportando em plena bienal de São Paulo, onde é tomado por obra de arte, enquanto uma família, formada por Jorge Dória, seu cunhado Albino Pinheiro e sua mulher Mara Rúbia, aguarda um cardeal, um dos que ocupavam o dito, para celebrar o casamento de sua filha. Dória e Pinheiro farão de tudo para roubar o elevador da bienal e soltar o cardeal, mas terão que enfrentar o destemido detetive - fora que Pinheiro será tomado por artista plástico de sucesso e o elevador será a obra mais cobiaçada da Bienal, numa crítica irônica ao pode tudo da arte de vanguarda. Aventuras d´um Detetive Português era para ser uma comédia, por isso a presença de Raul Solnado, um dos maiores comediantes de Portugal. Só que não há graça nenhuma nesse esquisito filme que não vai para lugar nenhum - não há comicidade e tampouco o recheio surreal seduz. Os únicos momentos de humor ficam a cargo da convidada do casamento que quer ir embora para casa - como no jantar interminável em O Discreto Charme da Burguesia (1972), de Luis Buñuel, aqui ninguém consegue sair da casa dos pais da noiva, pois Mara Rúbia não deixa; e ainda na presença da musa Betty Saddy, uma dançarina de palco que não consegue parar de dançar enquanto o rádio toca música. Mas isso tudo é muito pouco para uma produção cheia de méritos, como o elenco e a ficha técnica - fotografia de Dib Lutfi, montagem de Nazareth Ohana e presença de Ruy Guerra e Flávio Migliaccio no roteiro - assinado por Wohl e também com colaboração de Joaquim Assis. Bola fora.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes damas da tv (94)


Suzana Faini.





Salve Salve!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (285)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

285 - Elas São do Baralho (1977), de Sílvio de Abreu *****

Antes de virar novelista consagrado, Silvio de Abreu bateu ponto na Boca do Lixo como cineasta, roteirista e até como ator - em A SuperFêmea (1973), de Aníbal Massaini Neto. O sucesso maior como diretor foi com o drama erótico Mulher Objeto (1981), mas Abreu realizou também comédias, gênero que exploraria depois com enorme talento na TV. A melhor é esse Elas São do Baralho, que roterizou com Rubens Ewald Filho - com quem escreveria a novela Éramos Seis (1977) para a Tupi - em encomenda do produtor Aníbal Massaini Neto. No enredo, Claudio Correira e Castro, chefe de uma corretora em Belo Horizonte, é transferido para São Paulo, para onde vai com a esposa Sonia Mamede. Na chegada a Sampa, eles passam por assaltos de toda ordem, seja de um bando de ladrões - Adoniran Barbosa bradando "mãos ao ar" é hilariante - seja de uma turma de pivetes, e ainda com passagem pelo xilindró. Mas o que o casal nem imagina é a confusão que vai se meter quando os funcionários do escritório - Antonio Fagundes, Nuno Leal Maia, Hugo Bidet e Carlos Koppa - marcam uma reunião de buraco, o patrão leva a patroa, e eles ficam desesperados. Isso porque, na verdade, o encontro era uma armadilha para dobrarem o chefe mineiro careta, que ficaria no mesmo local com um quinteto de prostitutas do balacobaco - ou melhor dizendo, do baralho: Marivalda, Arlete Moreira, Esmeralda Barros, Francys Meyre e Valéria D`Ellia. Elas São do Baralho foi originalmente pensado como um dos dois episódios de um filme, mas Massaini gostou do resultado e resolver esticar. Abreu e Ewald Filho se recusaram a escrever o acréscimo, e Adriano Stuart e Roberto Silveira criaram um prólogo e um epílogo para que a produção se transformasse em um longa. Esse ínicio, inclusive, foi rodado em Belo Horizonte, e quem é das bandas de cá pode matar saudades do Cine Brasil - que foi um dos maiores cinemas populares do país e será reaberto depois de décadas como um centro cultural com direito a sala de cinema; a Igreja São José - ainda sem cerca; e o Café Nice - que resiste até os dias de hoje. "Essa é a gostosa historinha de um homem comum, é o momento do encontro de alguém com a sensação... com o prazer... e porque não dizer, com a sacanagem!" É assim que a trama é deliciosamente apresentada, em narração sacana, mas como bem diz Abreu em sua biografia na Coleção Aplauso - escrita por Vilmar Ledesma - o nu no filme, ao contrário de muitas produções da época, não é erótico, é engraçado. Realmente, Elas São do Baralho é engraçadíssimo, com toda a sequência do falso jogo do buraco elevando o filme em muitos decibéis. Sonia Mamede passa da recatada senhora mineira para a leoa que está fim de papar Fagundes com toda o timing, a veia cômica e o talento que sempre teve. Já as meninas estão ótimas, sobretudo os nomes de guerra com os quais foram batizadas - Nádia Marcha-Ré, Wanda Cacetada, Julieta Boca de Caçapa, Teresa Torniquete e Tânia Frango Assado. Arlete Moreira está linda; Marivalda fazendo uma deslumbrante mulher devoradora de homem - e meio mulher-bicha - como sempre soube fazer tão bem; e Esmeralda Barros divertida dando pernada a três por quatro com a cara mais séria do mundo. Todo o elenco é ótimo - tem também Yolanda Cardoso fazendo uma franchona dona de uma casa de massagem daquelas - e Hugo Bidet em papel sob medida - ele recebeu o APCA póstumo de Melhor Ator, já que se suicidou pouco tempo depois.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

longas brasileiros em 2010 (284)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

284 - Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor *****

Cotação cinco estrelas é muito pouco para esse magistral filme de Arnaldo Jabor. Depois de Toda Nudez Será Castigada (1972), em que parecia que o cineasta chegara ao seu máximo, ele realiza alguns anos depois esse desconcertante Tudo Bem - com O Casamento (1975) entre eles. Aqui, ele promove um encontro de classes em um apartamento em Copacabana e faz uma radiografia do Brasil. Paulo Gracindo convive dia-a-dia com os fantasmas de seus amigos enquanto a esposa Fernanda Montenegro se morde de ciúmes de uma hipotética amante do marido - a tal Waldete. Ainda vivem no ap o casal de filhos Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães - em época de Asdrúbal Trouxe o Trombone - mais as empregadas Maria Sílvia e Zezé Motta. Fernanda sonha há 26 anos com a reforma da casa e, finalmente, vê a empreitada se instalar na sala da casa, com uma turma de operários - Stênio Garcia, Anselmo Vasconcelos e José Dumont são alguns deles. Dumont, inclusive, leva sua família despejada, que faz acampamento com direito a fogãozinho de tijolo e tudo. Tudo Bem parece mais uma ópera, em que os personagens vão em tom crescente, seja no quarto, na sala ou na cozinha. Nessa última, dois modelos encarnados por Maria Silvia e Zezé Motta - a primeira uma religiosa reprimida e a segunda uma prostituta no turno da noite - se atraem em combustão deflagadora de destinos. No quarto, Fernanda e Gracindo circulam em embates mediados por alusões a remédios e piscininhas de motel, ao mesmo tempo em que toda uma vida de casados pode ser expiada pelo ralo. E na sala, os operários amarram a cara com a batata que cai no chão da marmita e fazem piadinhas autofágicas de suas misérias - "vida de pobre é boa", Fernanda saúda mais de uma vez para todos eles. E há ainda os fantasmas Luis Linhares, Fernando Torres e Jorge Loredo, que evocam Castro Alves, política, massas de macarrão e algumas tantas obscenidades. Com roteiro de Jabor e de Leopoldo Serran - mais a fotografia de Dib Lutfi - Tudo Bem é momento alto na história do cinema brasileiro, em que estão todos os desvarios de seu momento histórico - ditadura militar, fervor religioso, cinismo da classe média e cheiro de batata frita e sardinha. Prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Paulo César Peréio - que orquestra o coro Tudo Bem, enquanto Maria Silva entoa ladainha mortuária - e Melhor Fotografia para Dib Lufti no Festival de Brasília.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (162)


Ginger Rogers.






Nu!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (283)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

283 - Meu Mundo em Perigo (2007), de José Eduardo Belmonte *****

O cinema de Belmonte é urgente. Sua câmera nervosa e inquieta cola nos personagens e não os deixa um minuto sequer. E aí pode ser tanto por um carinho absoluto por eles, como também como guardião espiador de suas danações. Até agora já fez quatro longas, e os melhores são exatamente o primeiro, Subterrâneos (2004), e esse Meu Mundo em Perigo - o segundo é A Concepção (2005) e o quarto Se Nada Mais Der Certo (2008). Aqui, Eucir de Souza - ator mineiro radicado em São Paulo - e Rosane Mulholland vivem encontro dolorido, mas com rajadas e promessas de elevação. Ele perdeu a guarda do filho e matou acidentamente um homem; ela foge não se sabe de quê e pode não ser nada do que aparenta. Os dois se encontram no Hotel Paramount porque ele achou a carteira dela na rua. E enquanto ela grita dentro do armário e ele chora na cama, frases escritas em papel funcionam como porta de entrada para que ambos se conheçam e mirem o perigo de seus mundos. Há também no elenco Justine Otondo, a ex-mulher de Eucir, que depois de tempo de desestabilização emocional volta para lutar na justiça pelo rebento; e Fernanda D´Umbra, advogada dele e um tanto passional, em estilo bem diverso do que se vê comumente em homens e mulheres de direito. Por fora está a família disfuncional formada por Milhem Cortaz e um pai que o denigre o tempo inteiro e assedia sexualmente sua esposa sem que ele faça nada. Com a morte dele, Milhem passa a caçar Eucir como um anjo vingador de um pai idealizado, ao mesmo tempo em que parece admirar e querer ser aquele que deixou o patriarca morto e estirado na calçada, já que em vida jamais conseguiu revidá-lo - a sequência em que coloca a foto de Eucir ao lado do seu rosto no espelho é reveladora dessa ambiguidade. Tudo ao som de uma trilha sonora estonteante, com uma impactante It´s a Long Way, de/com Caetano Veloso, a nos atordoar o peito - e mais os preciosos roteiro de Mario Bortolotto, fotografia de André Lavenere, e montagem de Frederico Ribeincher. Rosanne Mulholland é impressionante, pois basta aparecer em cena para qualquer câmera - e não só a de epiderme de Belmonte - elegê-la para seus e nossos olhos. E aqui encontra um parceiro à altura, ainda que o registro em que circula Eucir de Souza seja outro e a sedução nossa se dê pela sua entrega absoluta e sem rede de proteção ao seu despedaçado Elias. Cada vez que ele chora - e o choro é abundante e das entranhas - a gente chora junto, e esse choro, o nosso, pode não cessar ainda muito tempo depois da luz apagar e irmos para casa ou para qualquer lugar outro. É arrebatador, e não à toa recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília. Existem vários tipos de filmes ótimos: aqueles que vão para o panteão das grandes realizações; aqueles que viram referência; aqueles que fazem história. Meu Mundo em Perigo está em outra chave: é daqueles eternamente do coração.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (282)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

282 - Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro (2010), de José Padilha ***1/2

O primeiro 1/3 desse Tropa de Elite 2 é muito fraco, daí a gente pensa logo: mas é esse filme que se tornou a maior bilheteria da história do cinema brasileiro? Ainda bem que nos outros dois terços o filme vai num crescendo, mesmo que não se equipare ao anterior. Se no primeiro Tropa os adversários eram os bandidos, a banda podre da polícia e os usuários da classe média, agora a hora e vez são dos políticos em campanha eleitoral e da milícia - por isso o subtítulo. Já o BOPE não, continua preservado, pelo menos na mente do agora coronel Nascimento de Wagner Moura, ainda que com menos espaço na trama. Moura continua lá narrando os acontecimentos, tem fios grisalhos na cabeleira, separou-se da esposa Maria Ribeiro, que por sua vez se casou novamente com o representante dos Direitos Humanos, Irandhir Santos. E por isso haverá um confronto entre os dois, tanto na esfera pública quanto na privada. Há ainda espaço na trama para o Mathias de André Ramiro; o filho de Nascimento, Pedro Van Held; a jornalista Tainá Muller; o policial corrupto Milhem Cortaz; os políticos de André Mattos e Bruno D´Elia; e o chefão da milícia Sandro Rocha. Tropa de Elite 2 tem toda a cara de uma superprodução - a ficha técnica não deixa mentir esse aparato - e consegue diálogo mesmo com o público, não á toa a bilheteria estrondosa em quase quatro meses de exibição. José Padilha procura imprimir na tela - via roteiro seu e de Bráulio Mantovani - todo um estado de indignação pela nefasta associação entre Estado e violência urbana via sistema de corrupção que assola boa parcela de nossos políticos. Durante a trama isso funciona mais organicamente, já a sequência no plenário fica um tanto over e didática por demais. O Nascimento de Moura saliva menos de raiva gozoza como era no primeiro Tropa, ainda que no início torça para que o governador permita que as gangues de Bangu se entredevorem. Os fios tensos do primeiro filme custam a aparecer nessa sequência, o que permite um certo distanciamento, que ainda que prejudique a ação do filme, possibilita-nos ver o que há de bom cinema ali e o quanto há de uma certa arrogância como um Tarzan a bater no peito - como no tom espalhafatoso na mídia envolvendo a tal assinatura de Padilha no manifesto da campanha Pró-Dilma. Tropa de Elite é um filme muito bem fotografado por Lula Carvalho e montado por Daniel Rezende. Wagner Moura está bem, mais quem rouba a cena mesmo é Sandro Rocha, como o imoral manda-chuva da milícia.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes damas da tv (93)



Célia Helena.






Salve Salve!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (281)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

281 - Bububu no Bobobo (1980), de Marco Farias **1/2

Último filme de Marco Farias - diretor que integrou o Cinema Novo e que faleceu precocemente aos 52 anos em 1985 - esse Bububu no Bobobo é uma homenagem aos áureos tempos do Teatro de Revista. Farias era altamente politizado, e mais uma vez não abandonou suas preocupações sociais e políticas usando do gênero revista para falar de seu tempo. Ainda que aqui é a homenagem a um estilo que teve sua época de ouro que está a frente de tudo. A presença de Angela Leal não só como atriz, mas também como co-produtora e co-assinando o argumento não é à toa, pois é filha de empresário do ramo e fundador do Teatro Rival, palco de muitas delas, inclusive produzidas por ele - nos últimos anos, Angela e sua filha, a também atriz Leandra Leal, administram o teatro. Como se sabe, as revistas colocavam em cena doses generosas de crítica em meio à músicas de salão, piadas de duplo sentido, muitas plumas, paetês e pernas estonteantes de suas vedetes. O filme tem tudo isso, em que uma trupe encena uma revista com enorme fracasso, enquanto especuladores imobiliários rondam o teatro a fim de comprá-lo - para destino não muito diferente que tiveram várias salas de cinema de rua que viraram supermercado, estacionamento e igrejas evangélicas. O dono do local e da companhia é Rodolfo Arena, que junto com a família sempre viveu dos espetáculos e resiste enquanto pode. A mulher é Nélia Paula, atriz principal, a filha é Angela Leal, atriz secundária, e o genro é Nelson Xavier, autor e diretor. Há ainda Michele, a estrela, e outros artistas como Ankito, Mara Rúbia, Colé, Silva Filho, Wilson Grey, Silveirinha, Gracinda Freire, Nick Nicola, e Carvalhinho - como o administrador. Bububu no Bobobo coloca em cena tanto a própria revista que o elenco protagoniza, como também discussões entre eles sobre o auge e o declínio do gênero. Mara Rúbia foi uma grande vedete da época áurea, daí a veracidade tanto de sua performance em cena quanto nas conversas acaloradas nos bastidores. O filme abre espaço ainda para as histórias dos personagens, com ênfase na relação conturbada entre Angela Leal e Nelson Xavier. Ela com ciúmes da estrela e querendo uma personagem melhor; ele se sentido o bode expiatório do fracasso da temporada do grupo. No elenco, Rodolfo Arena mostra mais uma vez porque sempre foi recrutado pelos mais diferentes diretores do cinema brasileiro, em mais uma interpretação arrebatadora. Pena que esse Bububu no Bobobo não tenha conseguido resultar em filme à altura de suas ótimas intenções.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (280)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

280 - Real Desejo (1985), de Augusto Sevá ***

"Se não fosse esse nosso imenso e difícil amor. Não fosse esse abismo entre nós, eu te convidaria a dançar o meu último bolero". Esses versos de Antonio Bivar são ditos por Maria Bethânia no disco Drama 3º Ato, registro de um dos seus grandes momentos nos palcos, antes de cantar "Donde Estara Mi Vida?", sucesso na voz de Gregorio Barrios nos anos 1950. Esses versos e o título dessa canção casam feito uma luva para a personagem de Ana Maria Magalhães nesse Real Desejo, de Augusto Sevá. Uma pequena diferença é que ela vai convidar Paulo Cesar Peréio, seu imenso e difícil amor, é para um tango. Em Real Desejo ela é uma atriz que faz sucesso na novela do momento, e que entra em crise com o amado/amante Peréio, ele também ator e par romântico na tal novela e na vida. Os dois estampam as revistas da TV e o público torce por eles sem saber que a trama cor-de-rosa ganhou cores nada amenas na realidade. O filme começa com Magalhães vislumbrando Peréio em uma estação de metrô, mas do lado oposto ao seu. Ele finge que não a vê, ela corre até o lado dele, só que ao chegar vê que ele não está mais. A partir daí, sua personagem vai iniciar uma busca para esse possível último tango - será o último? - enquanto se pergunta mesmo é onde está sua vida - ainda que descobriremos depois que essa busca já havia sido inciada. Real Desejo poderia ser mais um de tantos enredos sobre relacionamentos em crise, mas é na direção de Sevá, na fotografia e câmera de José Roberto Eliezer e na montagem de José Carone Jr que encontra seu verdadeiro diferencial. Pontuado por elipses elegantes, uma São Paulo quase como uma personagem, e a presença de luxo de música de José Miguel Wisnik na trilha sonora, o filme tem charme e ambiência sedutora - ainda que nem sempre funcione assim. As associações entre a imagem pública e a esfera privada da personagem possibilita bons momentos para Ana Maria Magalhães em sua beleza madura - mesmo que também haja deficiências em algumas dessas situações, como no desfecho do affair com o ladrão de carros vivido por Paulão. Real Desejo é filme um tanto obscuro e o único longa de ficção de Augusto Sevá - ele dirigiu o documentário A Caminho das Índias (1982 - com Isa Castro) e desempenhou funções técnicas em outros filmes. É um dos últimos trabalhos de atriz de Ana Maria Magalhães, que a partir do Cinema da Retomada privilegiará a carreira de cineasta. Ainda no elenco, uma boa aparição de Isa Kolpeman - atriz de estilo personalíssimo - fazendo personagem tão perdida quanto a de Magalhães, mas talvez em esfera mais trágica e profunda.

Obs.: imagem retirada do blog Estranho Encontro

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (161)


Jean Simmons.





Nu!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (279)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

279 - O Rebeliado (2009), de Bertrand Lira *

Uma das piadas maliciosas que transitam no mundo gay é a que diz que se existe ex-viciado, ex-padre, ex-macumbeiro - e milhares de outros ex - com certeza não existe ex-bicha. Pois esse O Rebeliado, dirigido pelo cineasta paraíbano Bertrand Lira, tem como foco exatamente a negação dessa máxima do mundo fashion. Ele conta a história do pastor Clóvis, a ex-travesti Anastácia, que depois de muita viração em João Pessoa, tornou-se evangélico e tem como principal missão trazer gays e lésbicas de volta ao sacrossanto mundo da heterossexualidade. Afinal, esse é o verdadeiro lugar para homens e mulheres no entendimento de muitas religiões, inclusive a católica, nesse mundo de meu Deus - ou pelo menos no deles. Muito já se falou aqui nos caminhos possíveis para o documentário, dentre eles aqueles que focam um personagem mas sem abrir mão de investimento na linguagem, e outros que calcam sobretudo em seu objeto. Esse último é o caso desse O Rebeliado, que às vezes parece quase aquelas filmagens que muitos saem a fazer sobre qualquer coisa, com a exclusão total de aspectos como direção de arte e com direito a ângulos sem muita elaboração. Não deve ser mesmo por displicência, pois Bertrand Lira é também professor de cinema na universidade federal da Paraíba. Mas talvez porque ele e sua equipe tenham apostado todas as fichas no seu personagem. E é aí que a porca torce o rabo. A história de Clóvis é interessante, pois criado sem pai, encontrou na mãe uma companheira de caminhada e de compreensão - é a melhor personagem do filme. Depois de muito trabalho infantil para ajudar na criação dos irmãos - é o mais velho - e mais adiante inclusive para bancar a bebedeira do padrasto, ele é posto na rua e toma seu caminho. Batizado pelas colegas de viração como Anastácia, faz da prostituição profissão, até o dia em que aceita Jesus - como diz mais de uma vez -, muda tudo e começa a ser guia espiritual para quem batesse à sua porta. Daí o nome rebeliado, pois nessa época ainda era autônomo e por isso tinha a oposição de líderes da igreja. Mas por fim torna-se pastor, casa-se e tem um filho, e divulga sua missão dando testemunho de vida em entrevistas para a TV e em seu programa de rádio. O pastor Clóvis é ligado à Assembléia de Deus, uma das mais conhecidas igrejas pentecostais. Há em todo o embasamento dele, e também em outros personagens que dão depoimento durante o filme, sempre um entendimento muito particular e firme na interpretação dos ensinamentos da bíbia. Isso diminiu em muito a eficácia do filme, pois muitas vezes parece que estamos em um processo de tentativa de conversão não muito diferente daquelas abordagens que nos fazem nas ruas. Só não se põe tudo a perder porque Clóvis, que assusta na suas pregações emocionais na rádio, revela uma certa elegância quando sai do púlpito - como, por exemplo, no encontro com a presidente da associação das travestis da Paraíba, um bom momento do doc. O Rebeliado trata de um universo acalorado, a homossexualidade - e as últimas eleições e os ataques recentes em São Paulo estão aí para não nos deixar mentir -, aqui pela vertente que parte dos evangélicos insiste em praticar: o que eles chamam de recuperação de gays e lébiscas. A parte o tema, que pode tanto atiçar a curiosidade como afastar, o maior problema desse doc nem está aí. O problema é muito testemunho religioso - com a estética característica das igrejas pentecostais - para pouquíssimo cinema.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (278)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

278 - Relatório de um Homem Casado (1974), de Flávio Tambellini ****

O cinema do paulista Flávio Tambellini é todo calcado na alta literatura - Nelson Rodrigues - O Beijo (1964); Pedro Bloch - Até que o Casamento nos separe (1968); Orígenes Lessa - Um Uísque antes... e um cigarro depois (1970); Rubem Fonseca - Relatório de um Homem Casado (1974) e A Extorsão (1975). Os dois últimos filmes foram com o mestre Rubem Fonseca, que assinou o roteiro junto com o cineasta. Tambellini encontrou na novela O Diário de Carlos, do escritor, a elegância necessária para realizar esse memorável Relatório de um Homem Casado. Homens casados e com estabilidade financeira obcecados por jovens perigosas já renderam inúmeros filmes, seja no cinema brasileiro ou internacional - O Anjo Azul (1929), de Josef von Sternberg, costuma ser a matriz de muitos. Mas o grande diferencial desse Relatório é a forma como a direção conduz a história de uma paixão avassaladora com um distanciamento e um tratamento seco incomuns nesse tipo de abordagem. Nery Victor é um advogado casado que leva a vida sem maiores rompantes, sempre com foco nos negócios do escritório que divide com o sócio Otávio Augusto. A morte do pai, José Lewgoy, que no leito de morte lhe revela que nunca amou a mãe dele e teve duas amantes, parece ecoar mais fundo do que imagina no seu mundo organizado e frio. E o encontro com Françoise Forton, uma jovem cliente apresentada pelo devasso amigo Fábio Sabag, coloca sua vida de pernas para o ar. Nery Victor segura bem o personagem, mas quem rouba a cena mesmo é Françoise Forton, que despontava no cinema estonteante, depois da deliciosa participação em fase adolescente com Stepan Nercessian em Marcelo Zona Sul (1970), de Xavier de Oliveira. Na transição entre a fase lolita e a de mulher plena, Forton magnetiza o olhar da câmera com sua personagem amoral - às vezes parece uma menina mimada, noutras uma vamp destruidora. Seu gozo com as sessões de massagem, de ducha e com o esmalte vermelho a lhe ressaltar as garras, enquanto o amante afunda cada vez mais, é símbolo acertadíssimo sobre o quanto uma paixão pode ser ninho perfeito para uma serpente. Mas se a obsessão dele por ela só faz crescer, a encenação continua a perseguir o tom distanciado e, paradoxalmente, quase asséptico - não há, por exemplo, cenas calientes de sexo e a combustão se faz presente em apenas uma cena ou outra. E é nessa escolha arriscada que o filme cresce e nos seduz, avançando léguas e léguas de muitos outros com o mesmo tema. Destaques ainda no elenco para Fábio Sabag, Janet Chermont, José Lewgoy e Betty Saddy. Relatório de um Homem Casado recebeu o Coruja de Ouro de Melhor Roteiro e o APCA de Melhor Filme e de Melhor Montagem (Leon Cassidy).

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes damas da tv (92)


Lady Francisco.





Salve Salve!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (277)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

277 - É Isso Aí, Bicho - Geração Bendita (1972), de Carlos Bini ***

Nos anos 1960 e 70, uma comunidade hippie fez história em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Isso pela novidade daquele modelo alternativo de vida e porque lá também estavam os músicos da banda Spectrum. Os rapazes lançaram em 1971 o LP Geração Bendita e participaram desse É Isso Aí, Bicho - Geração Bendita, considerado o primeiro filme hippie brasileiro, e que difundiu o modo de vida daquela comunidade, alojada no sítio Quiabos. O cineasta Carlos Bini, também de Nova Friburgo, roteirizou, dirigiu e protagonizou a história, em filme que foi proibido pela censura, mutilado, e que acabou sendo fracasso de bilheteria quando lançado. O mesmo aconteceu com o disco da banda, que não teve repercussão, e seria redescoberto só tempos depois na Europa, onde virou raridade e disputa entre colecionadores, e relançado trinta anos depois de sua feitura por um selo alemão, em 2001. Os alemães babaram com o rock psicodélico do Spectrum, e o disco foi alçado à condição de obra-prima. Já o filme, ficou ingualmente esquecido, até que, finalmente, veio à tona novamente - tanto na internet quanto no Canal Brasil. A trama, na verdade, é um fiapo. Advogado se cansa dos tribunais, fóruns e processos, joga tudo para o alto, e se integra à comunidade de hippies que vendem flores e artesanatos na cidade, sempre com o violão e outros instrumentos percussivos a tiracolo. Nessa transição, conhece uma garota de classe média, que enfastiada com a mãe controladora e o noivo que a convida ora para a missa ora para o cinema, flerta com aquele mundo dissonante de sua realidade e inicia romance escondido com ele. O que menos interessa ao filme é esse entrecho, já que o que está no centro da lente é o modo de vida daqueles cabeludos que amavam os Beatles e os Rolling Stones e professavam a filosofia de paz e amor. Daí, vê-se o dia-a-dia da moçada, com afazeres domésticos coletivos - como rachar lenha e preparar a salada ; amamentação para a cria que segue os passos alternativos dos pais; banhos de rio com todo mundo pelado; reuniões de mistismo oriental; e, claro, cigarrinhos de maconha passando de mão em mão - é ótima a cena do fornecedor que traz pacotão da erva enrolado em papel de pão e é recebido como rei por seus súditos. O romance entre os protagonistas, o próprio Carlos Bini e Rita de Cássia - que estreia como atriz e depois faz carreira tanto no cinema como na TV - é fraquinho, mas é recheio necessário para exibição nos cinemas. Não fosse isso, ficaria na esfera do documentário - que, aliás, parece ter sido a primeira opção. Uma sacada boa é a presença de um religioso que vive perseguindo a turma bicho-grilo com seus sermões bíblicos. A fotografia e a câmera de Fritz Meldy Lucien Mellinger - que também produziu e montou - é bacana, sendo que o grande destaque mesmo vai para a trilha inspirada e que permeia todo o filme. Carlos Bini e a Spectrum voltariam a se unir em O Guru das Sete Cidades (1972) - segundo e último filme do cineasta. É Isso Aí, Bicho - Geração Bendita é mesmo filme singularíssimo na história do cinema brasileiro - aliás, como é singularíssima também a década de 70 para a nossa cinematografia.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (276)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

276 - O Primeiro Dia (1999), de Walter Salles e Daniela Thomas ***1/2

O encontro com Daniela Thomas é um capítulo honroso na carreira de Walter Salles. Juntos dirigiram os longas Terra Estrangeira (1995), O Primeiro Dia (1999) e Linha de Passe (2008) - além de episódios para projetos coletivos como Paris, Te Amo (2006). Esse O Primeiro Dia é originário de série para TV francesa, em que cineastas de dez países foram convidados para a abordagem "2000 visto por" - Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Espanha, França, Hungria, Mali, Tawian. As filmagens foram rápidas e com orçamento reduzido, sendo que algumas passagens rodadas em tempo real, como na festa de fogos e oferendas na praia de copacabana durantes o reveillon da virada do milênio. O elenco conta, em sua maioria, com atores que já trabalharam com Salles - Fernanda Torres em Terra Estrangeira, Matheus Nachtergaele em Central do Brasil (1998), Tonico Pereira em A Grande Arte (1991); ou viriam a trabalhar - José Dumont e Luiz Carlos Vasconcelos, ambos em Abril Despedaçado (2001). E tem ainda ótima presença de Nelson Sargento como o presidiário vovô. Na trama, Luiz Carlos Vasconcelos sai da prisão com a missão de matar o amigo Matheus Nachtergaele, dedo-duro que anda entregando a marginália e a banda podre da polícia para a justiça. É o último dia do ano, e ele acaba encontrando Fernanda Torres, uma professora para surdos-mudos que depois de ser abandonada pelo companheiro Carlos Vereza, sobe ao alto do prédio para um último brinde. Dá-se aí um inesperado encontro entre dois personagens de mundo opostos e com a mesma perdição, ainda que - será? - com dores diferentes. O Primeiro Dia tem pouco mais de uma hora, mas desfila seu roteiro econômico com agilidade e personagens bem construídos. Não se sabe muito sobre eles, mas a forma como são apresentados os tornam completamente críveis. Como naquelas noites em que a gente encontra alguém nunca visto antes para falas e confidências de corpo e de alma, ainda que no dia seguinte outro novo encontro possa nunca mais acontecer. Vasconcelos e Torres se encontram em momento ápice das renovadas promessas de um ano novo, ainda que quando o calendário mude a mesma realidade possa estar em frente à janela e ao espelho. Ou não. O personagem de Sargento diz o tempo inteiro, saudando o milênio, que o nove vai virar zero, o outro nove vai virar zero, o outro nove vai virar zero, e o um vai virar dois. Nesse 2000 visto por Walter Salles e Daniela Thomas, mesmo que essa realidade dura não seja escamoteada, parece ainda haver lugar para milagres - mesmo que possa não ser para todos.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (275)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

275 - Ritmo Alucinante (1975), de Marcelo França ***

Muito antes do cigarro ser banido e estampar em seus maços situações abjetas de doenças e tragédias, a indústria da tabacaria viveu momentos de glamour, com direito de propagação cult pelo cinema, publicidade moderna, e lugar garantido em variados eventos de massa - basta dar uma olhada na reprise atual da novela Vale Tudo (1988/1989 - Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères), em que os personagens soltam baforadas o tempo todo, para se ter uma idéia de sua aceitação em tempos atrás. E foi a Souza Cruz, do mítico Hollyood, que patrocinou o grande evento de rock no Brasil em 1975, com edições posteriores na década de 1980 e 90 - até que foi proibido por lei a difusão de eventos culturais patrocinados pela indústria. O Hollywood Rock, durante sua trajetória, apresentou em sua programação atrações nacionais e internacionais com desfiles de astros e bandas como Rita Lee, Erasmo Carlos, Rolling Stones, Pretenders e Supertramp. A primeira edição, pilotada por Nelson Motta e registrada nesse Ritmo Alucinante, de Marcelo França, reuniu apenas atrações nacionais: Rita Lee & Tutti-Frutti, Vimana, O Peso, Erasmo Carlos, Raul Seixas,Celly Campello e Tony Campello. O interesse maior dessa produção é pelo registro histórico: uma Rita Lee recém-saída de Os Mutantes; O Vímana de Lulu Santos, Lobão e Ritchie; o retorno de Celly Campello. Alguns anos depois, em 1980, Rita Lee bradava zombeteira e cáustica em Ôrra Meu - no disco-sensação Lança Perfume - que rockeiro brasileiro sempre teve cara de bandido. Aqui, quase todos são cabeludos - Lulu Santos, inclusive - muitos de barba, em linha direta com a estética hippie mais sexo, drogas e rock´n roll que paz e amor. Mas para lá dessa importância de registro, há momentos ótimos. Quais? Uma entrevista de Erasmo e Celly com Scarlet Moon, que indaga mais de uma vez se eles consideram brasileira a música que fazem - mesmo sendo pós-Tropicalismo não se pode esquecer que as searas MPB e rock ainda eram bem demarcadas; Celly Campelo, a rainha precursora do rock brasileiro, com seu figurino cândido entoando Estúpido Cupido - Celly - junto com o irmão Tony Campello - trouxe o rock para o país em 1958, explodiu com Estúpido Cupido em 59, mas abandonou a carreira em 62 para se casar; com essa apresentação no Hollywood Rock mais o sucesso da novela Estúpido Cupido (1976/77), de Mário Prata, ela tentou retomar a carreira, mas não conseguiu; Rita Lee e sua banda Tutti & Frutti interpretando Splish Splash, versão de Erasmo e sucesso de Robeto Carlos; e, sobretudo, apresentação acachapante de Raul Seixas, que, em plena ditadura, brada os mandamentos de sua - e de Paulo Coelho - Sociedade Alternativa, entoa seus versos contestadores e postura idem, em imagem mais genuinamente roqueira que todos. Ritmo Alucinante tem cenas curiosas, pois a câmera está quase sempre voltada para o palco e para a performance dos astros, mas sempre se ouve a ovação da platéia. No entanto, quando a câmera se vira para ela, vê-se jovens mais bem-comportados do que se espera, ainda que sintonizados com a época.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (160)



Jean Harlow.






Nu!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (274)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

274 -Vereda da Salvação (1965), de Anselmo Duarte *****

Toda vez que se fala em história da teledramaturgia, nomes como Janete Clair, Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes são sempre apontados como destaques - e com toda a razão. Mas dentre aqueles que foram muito além do folhetim - raiz primordial do gênero - é impossível não se lembrar de Dias Gomes, Walter George Durst e Jorge Andrade, talvez três dos autores mais representativos de apurado olhar crítico, político e social dentro desse universo. Não à toa, Gomes e Andrade são também dramaturgos de alta estirpe. E foi na dramaturgia de Jorge Andrade que Anselmo Duarte foi beber para fazer esse Vereda da Salvação, filme imediatamente posterior ao sucesso internacional O Pagador de Promessas (1962) - até hoje nossa única Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mais de uma vez, Anselmo disse que a realização desse filme foi para provar para a turma do Cinema Novo que sabia fazer um filme complexo e de direção sofisticada, já que os cinemanovistas - provavelmente enciumados - apontavam o dedo em riste para a ingenuidade e o academicismo que viam em O Pagador. Quando a primeira montagem da peça estreou foi sucesso de crítica e não de público, mas o cineasta buscou o mesmo Raul Cortez do elenco dos palcos para o filme - para viver sua mãe, trocou Cleyde Yáconis por Lélia Abramo. Aqui, ele assinou o roteiro e contou com a presença de Andrade na adaptação e nos diálogos. Na trama, camponeses vivem acuados em terras cada vez mais demarcadas, sobrando para eles espaço exíguo para tirar o sustento de suas famílias. José Parisi é o líder, mas acaba perdendo terreno para Raul Cortez, que insurge como líder espiritual radical, que promete para todos um lugar seguro no céu, desde que se livrassem de seus pecados. Instala-se então uma histeria coletiva, com direito à violência para aqueles que não aderirem à nova ordem, além de assassinatos de crianças inocentes tomadas por demônios. Se Anselmo Duarte realmente queria mostrar que entendia do riscado - um exagero, pois já provara isso desde a estreia como diretor em Absolutamente Certo (1957) - ele realmente conseguiu. Vereda da Salvação é filme impactante com direção precisa e sofisticada - planos-sequências de tirar o fôlego, câmera focalizando personagens e cenas de ângulos criativos, e fotografia acachapante. Muitas vezes o mostrado é visto de cima, não só apequenando as misérias daquele povo, mas como também se Deus olhasse para aquilo tudo, não acreditasse no que visse e se retirasse. Daí, sobra ora para nós, ora para os fuzis apontados, testemunhar e aniquilar aqueles brados inúteis. Raul Cortez está soberbo em personagem que escamoteia a sexualidade reprimida - homossexualidade, edipianismo, rancor - e dá vazão a seu desatino em fanatismo religioso mortal, acreditando por fim ser ele o próprio Cristo. O elenco feminino é arrebatador, oferecendo nuances de postura e olhar para o que se desenrola, vivido por Lélia Abramo, Esther Mellinger, Maria Isabel de Lizandra, Aúrea Campos e Margarida Cardoso. O cineasta ainda se vale de figurantes completamente críveis, todos eles camponeses de verdade. Mais uma vez, Anselmo Duarte foi negligenciado em sua época, pois realizou fime arrebatador, mas fracasso de público. Fora do país, recebeu inúmeras críticas positivas e quase venceu o Festival de Berlim - perdeu para Jean-Luc Godard com Alphaville. Durante sua vida toda, ele disse que Vereda da Salvação foi incompreendido, mas que é seu melhor filme, a melhor coisa que fez em toda a sua vida. Assistindo uma, duas, três, ou quantas vezes for, fica realmente difícil não concordar com ele. Prêmios de Melhor Fotografia para Ricardo Aronovich e Menção Honrosa para Ester Mellinger e Raul Cortez na I Semana do Cinema Brasileiro de Brasília; Governador do Estado de São Paulo de Melhor Diretor e Melhor Música para Diogo Pacheco; Prêmio Cidade de São Paulo de Melhor Ator para José Parisi e Melhor Roteiro.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

sábado, 4 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (273)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

273 - Positivas (2009), de Susanna Lira ****

Existem alguns títulos que são muito felizes, pois conseguem sintetizar toda a idéia que há por trás de um filme. Como é o caso desse Positivas, de Susanna Lira, que focaliza um grupo de sete mulheres soropositivas que vivem em locais diferentes no país. E não é so pela menção direta à Aids, mas também porque todas elas são completamente positivas frente à doença e à vida, militando para dizimar o preconceito que envolve os portadores do HIV e os doentes. Elas vivem em Salvador, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, fazem parte do movimento Cidadãs Posithivas, e foram contaminadas pelos seus maridos, namorados e companheiros. Convivendo com o vírus há 8, 12, 15 anos, mostram que ainda que seja fatal, diagnóstico de Aids não é sinônimo de morte e que é possível levar uma vida com a dignidade resgatada em meio a tanto preconceito. Elas têm família, uma namorado, outra busca forças na fé e outras se divertem, cantam e dançam. E todas fazem de suas experiências militância, engajadas em campanhas de conscientização e de apoio, pronunciando palestras, fazendo corpo a corpo na rua para panfletar, e organizando ações do movimento. O documentário dá voz para que contem suas histórias, trazendo também para a cena familiares, amigos e companheiros, além de focalizar suas ações de conscientização. Ainda que os coquetéis prolongaram a vida dos infectados, todas deixam claro que seu uso não é um mar de rosas, pois há efeitos colaterais, além da exigência de uma discplina rigorosa no tratamento. Daí, alertam para o uso do preservativo, já que, inclusive, com os estimulantes sexuais, as relações também se prolongaram, com idosos também contaminando e sendo contaminados. E chamam a atenção para o principal motivo das mulheres se tornarem soropositivas: o tabu da exigência da camisinha em um casamento - "amor não imuniza", reforçam. Há relatos trágicos, como a de uma que se contaminou com o marido depois de 31 de casados; a de outra que foi se casar só aos 40 anos para se separar três meses depois e se decobrir contaminada pelo marido; e a da mãe que foi afastada dos netos pela filha. Só que o que poderia render relatos melodramáticos - e com toda a razão - jamais se resvala por essa chave, pois são guerreiras e, ainda que com dor e sofrimento, resolveram fazer do limão uma limonada. E, mais que isso, fazer de suas vidas uma postura política. Positivas é documentário que realmente tem o que dizer, e a direção de Susanna Lira é sempre respeitosa, sem jamais ser subserviente. Vencedor do Troféu Redentor de Melhor Documentário pelo Júri Popular no Festival do Rio, o filme vem ganhando o país e o mundo, com exibições em vários estados e em festivais na França, Colômbia, Argentina e Uruguai.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes damas da tv (91)


Natalia do Valle.





Salve Salve!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (272)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

272 - Vida de Balconista (2009), de Cavi Borges e Pedro Monteiro **1/2

Sorria, você está sendo filmado! Esse aviso está em todo lugar: nas lojas, no supermercado, no elevador. E é sob essa câmera, que parece ver tudo e nos deixar um tanto acuados, que a trama desse Vida de Balconista se desenrola - com direito à angulação característica e seu protagonista falando diretamente para ela. O filme é produzido pela Cavídeo Produções, originada de uma locadora descolada no Rio de Janeiro - a Cavídeo - pilotada por Cavi Borges e que funciona como nos bons tempos dos cineclubes: é possível encontrar filmes raros, curtas, e sempre dicas de quem conhece e ama o ramo. E não fica só nisso não, Cavi é também produtor e cineasta, com vários curtas no currículo e o longa L.A.P.A - co-dirigido com Emílio Domingos - sobre o universo do Hip Hop. Aqui, Cavi realiza mais um longa, dessa vez uma ficção, e outra vez dividindo a direção, agora com Pedro Monteiro - os dois também assinam o roteiro. O ator Mateus Solano, que ficaria depois conhecido nacionalmente com o sucesso da minissérie Maysa (2009) e da novela Viver a Vida (2009/2010), ambas de Manoel Carlos, é o protagonista. Ele é balconista do título, que durante um dia de trabalho recebe clientes com os mais variados perfis: o cinéfilo que não quer que a namorada, fã de Van Damme, pegue filme-porrada na sua ficha; a gordinha carente que quer mais carinho e atenção do que qualquer filme; o pernóstico que quer assistir títulos de países como Iraque e Estônia e nunca leva nada; o fiscal que quer intimidar no grito; a senhora adepta de hidroginástica que quer filme violento para depois tomar calmante e sonhar com seus ídolos; e por aí vai. Filmado em uma única madrugada em 2008 e tendo como cenário a própria locadora, Vida de Balconista é filme divertido que se utiliza do universo pop para construir suas referências estéticas e simbólicas - Quentin Tarantino, que foi balconista de locadora antes de cineasta e que trouxe muito de seu universo fílmico dali, é citado mais de uma vez, claro que de forma não necessariamente para se levar a sério, mas levando. E algumas citações são ótimas, como a brincadeira com o Cheiro do Ralo (2006), de Heitor Dhalia, com Paula Braum - atriz do filme e esposa de Solano, aqui como sua namorada. Mateus Solano tem carisma suficiente para segurar a peteca e dar um prumo para o desfile de personagens que poderiam cair facilmente na caricatura. Mesmo porque está à vontade no papel que desempenhou na série original concebida para exibição no celular. Vida de Balconista é filme que se assiste com prazer, ainda que ao final fique a sensação de que faltou algo, talvez pela escolha do foco nas situações do que propriamente nos personagens - o que bem na verdade faz até sentido, pois como o roteiro é inspirado nas situações acontecidas na locadora, a alta rotatividade de clientes não possibilitaria, necesserariamente, mais que isso.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (271)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

271 - O Poderoso Garanhão (1973), de Antonio B. Thomé *1/2

O Poderoso Garanhão não é o único filme de ficção com Waldick Soriano como ator - o anterior é Paixão de um Homem (1972), dirigido por Egídio Eccio; e nos últimos anos de vida, o cantor e compositor foi tema do documentário Waldick, Sempre no Meu Coração, que marcou a estreia da atriz Patricia Pillar como cineasta. Nascido no sertão da Bahia, Waldick debutou em discos em 1960, mas foi na década de 70 que atingiu o auge como um dos mais amados e controvertidos ídolos da música popular - seu maior sucesso é a canção Eu Não Sou Cachorro Não, lançada em 1972, que não só causou sensação nas rádios como também caiu na boca do povo e se tornou seu cartão de visitas. Além da música, Soriano tinha paixão também pelo cinema, e foi na figura do mítico Durango Kid que buscou inspiração para seu visual impactante de roupa preta e os indefectíveis óculos escuros. Nada mais apropriado para com essa pinta protagonizar filmes no gênero faroeste, como nesse O Poderoso Garanhão. Aqui ele é o hedeiro de uma fazenda, que volta para casa depois de 10 anos, após seu pai ser assassinado. O que ele não sabe é que o fazendeiro vizinho está de olho nas suas terras, e com sua inesperada chegada aposta todas as fichas na filha, que fora namoradinha dele na infância, para conseguir seu intento. Mas o confronto se dará mesmo é entre ele e o perigoso capataz do futuro cunhado, verdadeiro assassino de seu pai. Como no filme de Eccio, aqui também Soriano faz par romântico com Maria Vianna, que deixou de ser a lembrança infantil para personificar um bela mulher que adora tomar banho de cachoeira nua. Como a presença de mulheres despidas era fundamental no cinema da Boca, além dela há também a famosa zona da cidade, onde mais algumas outras mostram os peitinhos na cama ou mesmo na soleira da janela - mas tudo de forma muito pudica e bem distante dos decibéis de erotismo que as produções futuras iriam incorporar. O tipo machão de Soriano cai bem para o papel, ainda que seu personagem pedisse um ator mais jovem e ele já estava quarentão. O elenco coadjuvante conta com Adélia Coelho - a prostituta que sonha com o amor do herói - e com Heitor Gaiotti, parceiro habitual de Tony Vieira, e que nada de braçada no gênero. O Poderoso Garanhão - outro título apelativo e cheio de segundas intenções não confirmadas - faz referência ao faroeste americano e ao spaghetti italiano, com direito à gigantesca pedra ficanda em ampla planície e aos acordes de Ennio Morricone. Mas nem o argumento e roteiro de Luis Castellini e nem a direção de Antonio B. Thomé - e tampouco a atuação de Waldick - conseguem empolgar. Fica como curioso registro no cinema - além dos outros filmes citados - de um ídolo realmente popular.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (270)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

270 - Meninas (2006), de Sandra Werneck ***

A carioca Sandra Werneck é importante cineasta com trabalhos destacados já na década de 1970. Ou seja, muito antes do boom que comecaria a se delinear partir dos anos 80 e que chegaria ao auge na Retomada dos 90 para cá, quando muitas mulheres conquistaramm lugar merecido atrás das câmeras como diretoras - não só mais de curtas, mas também de longas. O começo foi como documentarista, mas é na ficção que vai ficar nacionalmente conhecida - Pequeno Dicionário Amoroso (1996); Amores Possíveis (2000); Cazuza - O Tempo Não Pára (2004 - co-dirigido com Walter Carvalho). Com esse Meninas ela retoma o documentário ao focar sua lente para quatro garotas que moram nos morros cariocas. Além da geografia, elas têm em comum o fato de estarem grávidas na adolescência - Evelin - 13 anos; Luana - 15; Edilene - 14; e Joice - 15. Com profundo respeito pelo seu objeto, o filme dá voz a essas meninas que ainda há pouco brincavam de bonecas e agora têm na barriga - e depois nas mãos - filhos que mudarão suas vidas e abreviarão, drasticamente, um estágio de suas trajetórias. Meninas acompanha momentos do dia-a-dia delas desde os primeiros meses de gravidez até o nascimento dos bebês, trazendo para a cena também namorados, pais e avós. O pai do filho de Evelin é ex-traficante; Luana diz que planejou o bebê porque queria ter um só seu, já que sempre cuidou da irmã mais nova; já Edilene e Joice esperam filhos do mês pai. O filme já começa acachapante com fila de adolescentes que farão teste de gravidez em posto público e que ao fazê-los colocam os copinhos de plástico com xixi do exame perfilados no balcão. Daí, acompanhamos as quatro focalizadas e o que elas pensam sobre a vida e como ela será com a responsabilidade precoce da maternidade. Adolescentes pobres e grávidas é uma realidade concreta não só nos morros, mas também em inúmeros bairros das periferias das grandes cidades. E não há campanha governamental ou não governamental ou grupos de discussões e de apoio que consigam dar conta dessa sangria - pois é lógico, o buraco é bem mais em baixo. Meninas, de Sandra Werneck, não aponta solução, apenas traz os sujeitos dessa história para a cena. São eles que simbolizam, em carne e sangue, todo um contingente alijado e vilipendiado socialmente. Como se fossem mesmo bucha de canhão para um destino miseravelmente anunciado. O filme faz esse recorte com elegância e sem firulas, olha as meninas e olha também quem e o quê estão ao redor delas sem fazer julgamento moral e que tais. Ali, pelo menos, elas deixam de ser apenas estatísticas - ainda que saibamos que estejam condenadas a própria sorte.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (159)


Carole Lombard.





Nu!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (269)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

269 - O Cafetão (1982), de Francisco Cavalvanti ***

Conteúdo e embalagem. Foi no cinema popular brasileiro da década de 1970, que o marketing - artesanal - criou asas e produziu publicidade sem se preocupar minimamente com a realidade do projeto. E não eram mauricinhos saídos de faculdades que levaram o intento a prumo não, mas os próprios realizadores - produtores e cineastas, com mãozinha também dos exibidores. Daí, uma série de títulos de filmes que nada tinham a ver com suas tramas e cartazes idem. Esse O Cafetão é um primor, pois ainda que o nome tenha sua razão de ser, um dos bandidões praticam a velha profissão, a peça publicitária é o oposto. O cartaz mostra mulheres nuas e os dizeres "Elas pagavam alto para viver no mundo da prostituição". Daí, o que se supõe? Bom, no mínimo, que o filme abrirá espaço para elas, as putas, talvez em história em que são exploradas pelo marmanjo do título. Certo? Errado. Ainda que as moças tirem a roupa bastante e sejam mesmo exploradas como bucha para canhão, na trama elas têm espaço quase nenhum - a não ser, despir-se, claro. Isso porque, na verdade, a história foca mesmo é o confronto entre duas gangues rivais para ver quem domina a bandidagem do pedaço, tendo ao centro um inesperado engraxate, sua gostosa patroa, e uma mais inesperada ainda mala recheada de tutu. Mas essa propaganda enganosa é algum problema? Que nada, O Cafetão é mais um dos deliciosos filmes policiais realizados nas décadas de 70 e 80 - ok, filmes policias foram realizados também em outras épocas, mas é necessário dizer que não com a estética suja, algumas vezes mambembes e altamente sedutores e criativos como nesse período. Aqui, Francisco Cavalcanti - bam bam bam do gênero - outra vez dirigiu e protagonizou, e sua parceira habitual e cheia de talento Madalena Silva escreveu o roteiro. Ele é o tal engraxate, que depois de um tiroteio mortal entre as guangues, fica com mala de dinheiro por acaso - e sem saber o que há nela - enquanto todos a procuram e torturam suspeitos aos quatros cantos, e ele tenta vendê-la nos brechós da vida. Cavalcanti faz ótima dupla com Zilda Mayo - e seu corpoão esfuziante - com quem é casado e passa fome, já que são pobres de marré-de-ci. Em ótima e inacreditável sequência - ou daquelas que só o cinema popular da época sabia fazer - ele pergunta se tem comida em casa, ela diz que não, pois ele não trouxe dinheiro, ele reclama a barriga vazia, e ela tira a roupa, deita na cama, e diz: vem! Com a cara mais safada do mundo e esfregando a barriga, ele responde: não sei se consigo, estou muito fraco. Hilário! Zilda Mayo, uma das mais amadas deusas da Boca Lixo está linda, como sempre, e sensacional como a nova rica que não sabe assinar o nome no hotel de luxo - "ih, esqueci de trazer roupa de cama", ela diz preocupada - e que distribui bisnaga de pão e sacos de leite para os antigos vizinhos dos barracões de tábua. Há também, claro, muito tiroteiro a torto e a direito, com lugar especial para a vedete da época, a metralhadora, que desfila na mão de cada bandido. O Cafetão é mais um exemplar do notável cinema de Francisco Cavalcanti, que nos deu outras pérolas de ação como O Porão das Condenadas (1979), e Horas Fatais - Cabeças Cortadas (1986).

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

268 - Os (As) Alegres Vigaristas (1974), de Carlos Alberto de Souza Barros

Episódio O Padre e a Modelo **1/2
Episódio Hollywood *1/2
Episódio Os Alegres Vigaristas **1/2

Baesado em peças de Marcos Rey, Os Alegres Vigaristas - que também é grafado como As Alegres Vigaristas - não foi só apenas dirigido por Carlos Alberto de Souza Barros, como também teve o roteiro e a montagem assinados por ele. Em cena, o universo muito particular de Marcos Rey, um dos grandes autores de nossa literatura que mais escreveu roteiros para o cinema, com seu divertido e perpicaz ohar para a classe média. Não é dos melhores filmes de Barros nem tampouco dos melhores a beberem na fonte generosa de Rey. Aqui, o grande destaque vai para o elenco, que demonstra o quanto o cineasta foi grande diretor de atores. A trupe é sensacional: Luiz Armando Queiróz, José Lewgoy, Iris Bruzzi, Martin Francisco, Amândio, Djenane Machado e Elza Gomes. O primeiro episódio, O Padre e a Modelo, coloca um Lewgoy engraçadíssimo de peruca e professor de teatro, que tenta fazer de Queiróz um grande ator. Esse, por sua vez, acaba incoporando tão verdadeiramente o personagem de um padre, que é tomado pelo próprio e acaba vivenciando confusões - sobretudo no encontro com uma fogosa Bruzzi, modelo que, pensando que o moço é religioso de verdade, o tentará a cometer o pecado da carne. Esse segmento passa de uma comédia mais rasgada para uma ambiência cheia de climas no encontro entre o casal, com direito à deslocada música de Mahler e um sedutor jogo de mentiras e verdades. Hollywwod é sobre o comerciante Martim Francisco que leva a balconista Fátima Braum para um motel afim de resolver o problema que lhe aflige: não consegue dar no coro com a esposa e nem com nenhuma mulher. Esse é o episódio mais fraco, ainda que conte com o talento de Martim Francisco, presença connstante no cinema dos anos 1970, e aqui com todo direito como protagonista. Já o terceiro, Os Alegres Vigaristas, é sobre o casal de namorados formado por Djanane Machado e Amândio, que protagoniza curiosa disputa: quanto tempo ele, que sofre de claustofobia, consegue ficar trancado dentro de um armário. Isso tudo porque a moça não quer ser pega pelo pai com o namorado no apartamento, um homem violento que, com certeza, exigirá o casamento dos pombinhos. Só que quem chega é Elza Gomes, a tia, que resolve passar uma noite com a sobrinha, para desespero de Amândio, que continua trancafiado. Amândio é ator e comediante de grande talento, e aqui encontra personagem feito sob medida. A química com Djenane Machado funciona perfeitamente - e faz a gente morrer de saudades dessa atriz. E por fim, Elza Gomes, a mais amada e endiabrada velhinha do cinema brasileiro. Os (As) Alegres Vigaristas é filme irregular, mas que tem seus momentos.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

sábado, 27 de novembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (267)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

267 - Terra Vermelha (2008), de Marco Bechis *****

"Antes que o homem aqui chegasse, as terras brasileiras eram habitadas e amadas por mais de 3 milhões de índios, proprietários felizes da Terra Brasilis, pois todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril", já cantava Baby do Brasil - ainda Consuelo, na música de Jorge Benjor - ainda Ben, hit nas rádios do país. E é por querer de volta a sua terra e todos os seus dias, que um grupo abandona a reserva em que morava e monta barraca em frente à uma fazenda nesse impactante Terra Vermelha, uma co-produção Itália/Brasil. Ameaçados pela perda total de identidade, explorados pelos comerciantes oportunistas, consumidores de cachaça e de cigarro, e indignados com a alta taxa de suicídio que acomete seu povo, eles dão um basta e vão parar nas terras de um fazendeiro, onde, do lado de fora da cerca e á beira do asfalto, vislumbram a mata do lado de lá, onde reconhecem ser a terra deles. Pouco a pouco vão chegando outros índios e um possível confronto se delineia - e enquanto isso, um jovem destinado a ser xamã e seu amigo caçam juntos e simbolizam, de diferentes formas, o contato/contágio com os brancos. No início desses anos 2000, a tribo Guarani Kaiwa foi destaque na imprensa nacional, e internacional, pelo crescente número de suicidios entre os jovens das aldeias no Mato Grosso do Sul. O fenômeno assustador já vinha desde a década de 80 e com efeito crescente a cada ano. O diretor chileno radicado na Itália, Marco Bechis, usou esse fato real para criar um entrecho ficcional, usando no elenco integrantes da própria tribo, todos ótimos em cena, além de atores brasileiros - como Leonardo Medeiros e Matheus Nachtergaele, e italianos - como Chiara Caselli e Claudio Santamaria. Bechis assinou o roteiro junto com Luiz Bolognesi, que segundo ele, o presenteou com o filme Iracema - Uma Transa Amazônica (1974), dirigido por Jorge Bodansky e Orlando Senna - o primeiro, pai da esposa de Bolognesi, a também cineasta Laís Bodansky. Iracema faz um retrato pungente e não menos impactante sobre a aculturação dos índios, a partir do encontro entre um caminhoneiro e uma jovem índia que acaba se prostituindo no entorno da grande estrada-símbolo de progresso do regime militar. Em Terra Vermelha esse modo de vida do branco está ainda mais enfronhado na comunidade indígena, que se veste, inclusive, de selvagens para turista ver, em troca de minguados trocados. Aqui, as indias usam expressões como "pau grande e gostoso" para o segurança das terras da fazenda; o adolescente escolhe o tênis da moda na vitrine; o futuro xamã aprende pilotar motocicleta com a filha do fazendeiro; e o chefe da tribo cai bêbado de cachaça no meio da sua gente. Enquanto isso, jovens suicidas com camiseta do Instituto Rondon são enterradas na terra pura com objetos como celular, e são xingadas e abandonadas pelos familiares. Exibido com sucesso de crítica no Festival de Veneza - mas sem abocanhar nenhum prêmio - e como filme de abertura da 32ª Mostra de Cinema de São Paulo, Terra Vermelha foi mal nas telas - apenas 4.787 espectadores segundo registro no Dicionário de Filmes Brasileiros, de Antonio Leão, a partir da fonte Filme B. Número mais que injusto para um ótimo filme e uma das melhores co-produções recentes, e que pode encontrar seu público potencial no formato DVD.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes damas da tv (90)


Sandra Barsotti.






Salve Salve!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (266)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

266 - Missionários (2005), de Cleisson Vidal e Andréa Prates **

Para muita gente, bandido bom é bandido morto, e palanques para a pena de morte surgem a cada esquina, mandando para longe qualquer tentativa de reflexão sobre o assunto. Nessa hora, saca-se a lição do Velho Testamento mas incrustada nesses partidários: olho por olho, dente por dente. Ainda mais em momentos como os atuais, em que imagens na TV do confronto entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro mais parecem de uma guerra. A prisão é um ato punitivo, e é também, em tese, processo de ressocialização - trancafia-se para que, depois de cumprir a pena, o preso possa ser devolvido a sociedade. Só que não é necessário fazer nenhuma pesquisa para saber que cadeia é sinônimo de inferno e curso intesivo de profissionalização de bandidagem, e que muito preso realmente sai pior do que entrou. Não há aqui nenhuma tentativa de diminuir a dor de quem foi vitimado pela violência, mas é necessário dizer que o tema é mais complexo do que querem os absurdos justiceiros de plantão e que um preso que cumpre pena tem todo o direito de voltar a viver em sociedade com seus direitos adquiridos - foi punido e pagou a punição. O documentário Missionários focaliza três detentos da Frei Caneca, no Rio de Janeiro, que redirecionaram sua vidas montando uma banda de rock. Com 20 anos de pena, todos três foram presos entre os 19 e 20 e poucos anos por latrocínio - roubo seguido de morte -, sendo que dois cumprem pena em regime fechado e um em semi-aberto. Dois deles, o vocalista Pedro e o guitarrista André, se aproximaram pela admiração mútua pela música da extinta banda Legião Urbana. Daí, começam a ensaiar e aprender o ofício na marra, recrutam o terceiro, o baixista Luciano, e mais um baterista, que não tem trajetória focalizada. O que de início poderia ser uma forma de abstração do universo da cadeia acaba tomando grandes proporções, com direito à formação da banda Missionários do Rock, que ganha espaço na mídia, gravação de CD, e por fim esse documentário exibido no Festival É Tudo Verdade e no Festival do Rio. Em um tempo em que nem o jornalismo consegue aplicar a imparcialidade - que sempre foi mito, mas cuja procura vem sendo jogada para as cucuias - o que não há nesse doc é preocupação com esse registro. Os diretores Cleisson Vidal e Andréa Prates são abertamente defensores da causa de seu objeto, e é aí que se revela o calcanhar de aquiles do intento - não por serem defendores, mas a forma como às vezes defendem. A trajetória do trio de presos tem por si só características notáveis, pois é retrato positivo de um estrato normalmente reduzido a nada. Só que é a total parcialidade dos realizadores que prejudica o resultado do filme, pois fica nítida a impressão de que, imbuídos dessa vontade de dar voz ao objeto, eles não conseguem cortar onde necessário e nem evitar registro de momentos emocionais desnecessários - não na realidade, pois legítimos, mas para o filme. Isso acaba por imbuir de tintas melodramáticas alguma sequências de uma situação que já fala por si só. Nesses momentos, dá-se uma manipulação over, como se o entendimento do mostrado pudesse vir só com a comoção, quando na verdade é, principalmente, em falas racionais como as de um deles, André, e nas da mãe de Paulo, que o entendimento desse estado de coisas se realiza mais eficazmente. Há ainda uso de recurso de busca de efeito - também utilizado no belo Contratempo (2008), de Malu Mader e Mini Kerti - sobre o caminho de um deles. Missionários conta história importante, sobretudo pela dignidade readquirida, não pelas mãos do Estado, mas pelos próprios agentes de sua história - ainda que como cinema não alcance grandes voos.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

zingu! vence o IBAC 2010



Hoje é dia de muita alegria.

Nossa Zingu! arrebatou o prêmio IBAC 2010 - categoria cinema.

Parabéns para toda a equipe!

E mais, a nova edição entrou no ar, ainda em fase provisória de design- chamamos de beta - já que a versão final com layout totalmente novo de Julia Morena entrará em breve.

Tem Dossiê sobre Francisco Ramalho Jr (foto), Especial sobre Futebol no Cinema e, claro, as colunas tradicionais.

E agora posso contar. Como Gabriel Carneiro já registrou na Carta ao Leitor, ele sai do cargo de Editor-Chefe, mas, felizmente, não sai da revista. Daí, eu assumo a função a partir do próximo número.

Vejam quanta honra e responsabilidade!

Espero corresponder à altura da Zingu! e dos amigos e editores-fundadores Matheus Trunk e Gabriel Carneiro.

Virão também novidades por aí.


Confiram:
http://www.revistazingu.net/

longas brasileiros em 2010 (265)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

265 - Fuscão Preto (1982), de Jeremias Moreira Filho ***

A refilmagem de O Menino da Porteira no ano passado, levada a cabo pelo mesmo diretor da primeira versão em 1977, trouxe de volta ao set o cineasta paulista Jeremias Moreira Filho. Nome de talento do cinema sertanejo, há nos filmes de Jeremias uma apropriação tão orgânica do universo que retrata, que é como se ele não tivesse feito outra coisa na vida senão domar cavalos, botar gado para pastar e ouvir moda de viola em volta da fogueira. Mas a sua biografia é bem diversa, pois fez Escola de Belas Artes, teatro com Eugênio Kusnet no Centro de Estudos Macunaíma e produção, direção e montagem de filmes publicitários. Nos anos 60 e 70 vai para o set, em diferentes funções, em muito boa companhia - Luis Sérgio Person, Reynaldo de Barros, Olivier Perroy e Roberto Palmari. Por outro lado, nos mesmos anos 60 e 70, o cantor Sérgio Reis, paulista também, transitou pelo bolero, iê-iê-iê, e fez sucesso com a canção Coração de Papel, de sua autoria. Mas a consagração mesmo viria em 1973 quando gravou a música O Menino da Porteira, de Teddy Vieira e Luisinho, passando a direcionar sua carreira para o gênero sertanejo. E foi o encontro entre os dois, Moreira Filho e Reis, que resultou na estreia em longas do primeiro, O Menino da Porteira (1976), seguido de Mágoa de Boiadeiro (1977), ambos estrelados pelo segundo. Os filmes ajudaram a projetar o cantor e colocou o nome de Jeremias Moreira Filho na lista do cinema popular brasileiro. Já na década seguinte, foi mais uma vez uma música de sucesso, Fuscão Preto, e mais um cantor sertanejo, Almir Rogério, que colocaria o cineasta outra vez no set para realizar outro filme, que teve título homônimo da canção. Coincidentemente, Almir Rogério fez sua primeira gravação exatamente de uma música de Sérgio Reis, Triste, na década de 70, mas foi no início dos 80 que sacudiu as rádios AM do país com a música de refrão-chiclete, que virou verdadeiro fenômeno de massa. Daí que Enzo Barone - que produziu filmes para Walter Hugo Khouri - e Ennio Barone botaram dinheiro, Francisco de Assis escreveu o argumento e o roteiro, Jeremias Moreira Filho dirigiu e Almir Rogério protagonizou Fuscão Preto - que durante décadas marcou a precoce depedida do cineasta das telas. Mas esse filme também contou com uma garota, do Rio Grande do Sul, que desde a adolescência vinha galgando a carreira de modelo e já se encontrava em posição de destaque, namorava um certo jogador Camisa 10, integraria a Ford Models, e se tornaria apresentadora de televisão na Rede Manchete. Seu nome, claro, Xuxa Meneghel. Nessa mesma época, Xuxa atua também em Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, que depois, já milionária, consegue, absurdamente, tirar de circulação, já que achou que os amassos com o garoto do elenco em cena não ficaria bem para sua carreira de apresentadora de programa infantil. Em Fuscão Preto, Xuxa está prometida em casamento para o namorado de infância Denis Derkian, que tem Monique Lafond como amante, e só quer se casar com a moça porque seu pai Mário Benvenutti, prefeito da cidade, está de olho na fazenda de Dionísio Azevedo, pai dela. Tudo porque quer instalar nas terras do outro uma plantação de cana para fabricar álcool como combustível. Só que chega na cidade Almir Rogério, um domador de cavalos que se apaixona pela bela, e também um fusca preto que mais parece do além. O tal fuscão agita a cidade, fica obcecado por Xuxa, e ela ficará dividida entre os dois homens e o fascínio incontrolável que sente pelo estranho carro. O argumento do filme boi baseado na canção que diz "me disseram que ela foi vista com outro num fuscão preto pela cidade a rodar". Só que Francisco de Assis criou todo um entrecho no roteiro em que se opõem a tradição, encarnada por Azevedo, que quer manter a fazenda como pasto, e o progresso, encarnado por Benvenutti, que quer mergulhar nas promessas da indústria do álcool. Como progredir nem sempre significa andar por linhas retas, o segundo tentará meios espúrios para conseguir seu intento. O roteiro apostou ainda em um certo ar de mistério e de apelo sexual que ronda o tal fuscão preto - e as cenas sensuais com Xuxa e o carro são sensacionais, com direito a banho de rio e amassos e roças entre corpo e máquina (lembram de Crash - Estranhos Prazeres (1996), de Cronenberg?). Fuscão Preto acabou ganhando ares de cult, algo que seria quase impensável para um filme de temática sertaneja, mas que corresponde à aura criada em torno de si. Principalmente pela presença de Xuxa em mais um papel cheio de desejos inesperados - para a imagem que construiu depois - e pelas soluções que a trama encontra. Ainda no elenco a boa presença do veterano cantor e comediante Zé Coqueiro, que atua em todos os filmes dessa fase do diretor.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 23 de novembro de 2010

longas brasileiros em 2010 (264)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

264 - O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil (1971), de Antonio Calmon *****

Se não tivesse todas as qualidades que o destaca como um dos cineastas brasileiros mais subestimados desse país - e o Insensatez não se cansa de apontar o dedo para uma certa crítica boçal que o ignora - Antonio Calmon já seria ímpar por uma única marca inquestionável de seu cinema: o casamento perfeito entre imagem e música nos seus filmes. Nessa seara a expressão não pode ser mesmo outra: o cara é foda! E aqui nesse O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil, seu longa de estreia, mais uma vez a trilha é arrasadora. Assinada por Nelson ângelo, é raro ver a música jovem dos anos 1960/70 como Os Mutantes, Jorge Benjor - ainda Ben, Roberto Carlos e Caetano Veloso ser utilizada de forma tão genial. Senão, qual adjetivo para qualificar a aparição estonteante de Norma Bengell de roupa negra transparente a revelar os seios e ao som de Ôba, Lá Vem Ela, de Ben? Ou então Suzana de Moraes na janela e depois em frente ao espelho e se contorcendo na cama nos braços de Claudio Marzo ao som de As Flores do Jardim de Nossa Casa, de Roberto? Com fortes tintas experimentais e em sedutor cinemascope, esse primeiro longa de Calmon se utiliza das magistrais fotografia e câmera de Affonso Beato, que desde os anos 60 já mostrava genialidade - e muito antes de ser incensado pelos modernos com os filmes acachapantes de Pedro Almodovar. Se o príncipio básico do cinema está na imagem e na forma de contar, O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil nada de braçada, pois há imagens completamente arrasadoras, como Bengell dançando e agitando a cabeleira; mais uma dança, dessa vez entre Hugo Carvana e Sergio Oliva; e o belíssimo travelling na casa em que Marzo, Bengell e Billy Davis, o chofer-amante, vivenciam cena-ópera. Egresso do Cinema Novo, em que foi assistente de muita gente, como Cacá, Glauber, Dhal e Jabor, Calmon não se furta a fazer citação avacalhada de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Rocha, colocando as musas Dina Sfat, Sonia Braga e Maria Gladys para se estrebucharem no mato, com a última debochando da cena em cima de um formigueiro - Gladys, aliás, sacaneia deliciosamente o próprio cineasta em cena de filmagem dentro do filme. Na trama, Claudio Marzo é um empresário poderoso que vive fustigando os sócios John Herbert, Roberto Maya e Paulo César Peréio, não se intimidando inclusive a papar as mulheres deles. Certa noite, cruza seu caminho Norma Bengell, estranha emissária de um certo Dr. Moura Brasil, que vem cobrar seu quinhão em acordo feito com ele, o vulgo Capitão Bandeira. A partir daí, Marzo entra em crise, joga tudo para o alto, vai parar em um sanatório, e depois, acompanhado do amigo Hugo Carvana, sai em busca de um possível caminho de redenção para sua vida, mesmo sem entender que a ameaça possa estar mesmo é dentro de si. O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil é filme desconcertante e inaugural no formato longa - antes, dirigiu o curta Infância (1965) - de uma das filmografias mais sensacionais e deliciosas do cinema nacional.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo