De volta ao começo.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2022
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (020)
As prisioneiras da ilha do diabo (1981)
Direção: Agenor Alves
Direção: Agenor Alves
Como já foi dito aqui no Insensatez, o baiano radicado em
São Paulo Agenor Alves fez história no cinema brasileiro. Afinal é, até hoje, o
cineasta negro que mais dirigiu longas: sete. São eles: Tráfico de fêmeas (1978), Noite
de orgia (1980), A volta de Jerônimo
no sertão dos homens sem lei (1981), As
prisioneiras da ilha do diabo (1981), A
cafetina de meninas virgens – O kapanga (1982, codireção de Guilermo Vera),
Lídia e seu primeiro amante (1982), Eu matei o Rei da Boca (1987). Alves trafegou
pelo cinema de aventura, pelo faroeste, pelo policial, e pelo erótico.
Em As prisioneiras da ilha do diabo, um grupo de quatro manequins
é arrastado pelos magnatas babões da plateia de um desfile para um passeio de iate no
Guarujá. Elas, claro, topam, e algumas já vão entrando no barco e se desfazendo
logo das roupas. O que o grupo nem imagina é que, ao mesmo tempo, um bando de
foragidos da prisão circula pelo pedaço, e ao correrem da polícia invadem o
barco, faz todos de reféns e leva todo mundo para a tal Ilha do Diabo. É lá que
um dos bandidões vai se apaixonar perdidamente por uma das sequestradas,
mudando o destino de todos eles. Há nos filmes de Agenor Alves – pelo menos o
visto até aqui – um genuíno interesse pelo cinema de gênero. Nesse As
prisioneiras ele, inclusive, se escalou como o protagonista, o tal bandidão de
alma romântica. Os problemas de seu cinema são os roteiros manjados – também
assinados por ele -, e a direção claudicante. E como é Boca do Lixo, dá-lhe
moçoilas peladas, na maioria das vezes gratuitamente e em cenas esdrúxulas para
situá-las no contexto da história. Há
ainda algumas soluções inacreditáveis, como aqui. Exemplo? Os ex-presidiários,
escrotos até mandar parar, passaram tempos trancafiados, daí o natural não
seria eles traçarem logo aquelas meninas seminuas ali disponíveis? Seria, né?
Só que eles antes conversam, comem, tiram um cochilo, e só depois parecem se
lembrar da secura sexual.Outra coisa: Alves parece ter fixação
em trilha sonora, pois não há cena em que um instrumental não pontue o mostrado, em
efeito paradoxalmente contrário, pois xaropetizante, à narrativa. Depois de
assistir ao faroeste A volta de Jerônimo e essa aventura mezzo policial mezzo erótica,
ainda faltam cinco filmes a conferir e daí ver, realmente, o que foi o cinema
de Agenor Alves dentro da Boca do Lixo.
Obs.: esse cartaz, para o lançamento em vídeo, não condiz com cena do filme, mas foi a única imagem que encontrei para ilustrar a postagem.
Obs.: esse cartaz, para o lançamento em vídeo, não condiz com cena do filme, mas foi a única imagem que encontrei para ilustrar a postagem.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (019)
Os deuses e os mortos (1971)
Direção: Ruy Guerra
Direção: Ruy Guerra
O Cinema Novo, página importante da história do cinema
brasileiro, propunha-se a realização de filmes com forte acento político e
social - fossem rurais (primeira fase) ou urbanos (segunda fase) - e com
propostas conscientizadoras. Reuniu cineastas como Glauber Rocha, Paulo Cesar
Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Carlos Diegues,
em inquestionáveis obras-primas como Deus e o diabo na terra do sol (1963), de
Glauber, Os fuzis (163), de Guerra, e O padre e a moça (1965), de Joaquim. O
mestre Nelson Pereira dos Santos dirigiu um dos maiores do período, Vidas secas
(1963) - ainda que há alguns anos tenha dito que ele, Nelson, não era Cinema
Novo. Com o endurecimento da ditadura civil-militar pós AI-5, em 1968, muitos
se exilaram e outros partiram para filmes mais herméticos e alegóricos, como
Ruy Guerra em Os deuses e os mortos (1970).
Em Os deuses e os mortos, coronéis do cacau no nordeste –
Jorge Chaia e Rui Polanah - se digladiam pelo poder, o que custa baixas de cada
lado em um crescendo incontrolável. Enquanto essa guerra se trava, um estranho
homem, Othon Bastos, busca seu lugar nesse reinado, em meio a personagens como
a esposa de um dos coronéis e seu desejo de posse – Norma Bengell; uma
camponesa justiceira – Ítala Nadi; um dos capangas em conflito – Nelson Xavier; uma prostituta dona de zona – Mara Rúbia; e uma louca grávida que perambula
pelas terras dos senhorios – Dina Sfat. Os deuses e os mortos é filme super premiado
– no Festival de Brasília arrebatou Melhor Filme, Direção, Ator (Bastos), Atriz
(Dina Sfat), Cenografia e Trilha Sonora -, mas ainda assim é um dos menos
comentados, e talvez menos vistos, do Cinema Novo. O roteiro e os diálogos são
assinados por Ruy, Flávio Império e Paulo José – também um dos produtores do
filme – que não facilitam a vida do público, nem o de ontem e nem o de hoje. O
filme tem encenação poderosa, mas aposta alto em teor alegórico, o que não o
torna de fácil digestão, ainda que, como imagem, impressione. Em seu misto de
biografia e autobiografia – assinada por ela e Mara Caballero -, Dina Sfat, que
estava realmente grávida durante as filmagens, registra: “- Participo do filme,
faço o papel de uma louca grávida, passo alguns dias em Ilhéus, chego a pensar
que a minha criança vai nascer em pleno cacau. No fim de tudo ganho um prêmio e
uma música de Milton Nascimento, “Cravo e Canela”. Mas o filme, Os deuses e os
mortos, é um modelo de produção descontrolada. Gasta-se muitíssimo, Rui Guerra
cria, Paulo José não sabe de onde arrancar dinheiro e pede emprestado até ao
Mazzaropi. Quando a coisa se encerra, devemos 450 milhões de cruzeiros; eu
ganho 3 milhões, o Paulo José, 12 milhões”. Os deuses e os mortos tem trilha de
Milton Nascimento, que também faz ponta como ator.
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (018)
Alô?! (1998)
Direção: Mara Mourão
Direção: Mara Mourão
Não sei todos sabem, mas até a década de 1960 tínhamos menos
de 10 diretoras de longa-metragem no Brasil. Com as conquistas sociais e
sexuais dos anos 60 e 70, a situação foi se modificando e a partir daí outras
mulheres conseguiram chegar ao formato. Agora o boom mesmo se deu com o chamado
Cinema da Retomada, a partir de 1995, e que teve exatamente pelas mãos de uma
mulher, Carla Camurati, seu marco definidor. Muitos nomes talentosos dos curtas
migraram para o longa e nossa cinematografia foi enriquecida por gente de
altíssimo quilate como Tata Amaral e Eliane Caffé. Hoje esse número acumulativo
já soma mais de 250 cineastas pilotando longas dos mais diferentes gêneros. E dentre elas está a carioca radicada em São
Paulo, Mara Mourão.
Em Alô?! (1998) acompanhamos uma turma de trambiqueiros do
cotidiano: o casal formado pelo especulador imobiliário Herbert Richers Jr e
sua esposa dona de butique Betty Lago; a empregada doméstica deles Myriam Muniz
e o irmão dela e trapaceiro Wellington Nogueira. Richers Jr está às voltas com
um negócio milionário de compra e revenda de terra. Lago copia os modelos de
grifes famosas para vender na sua loja, enquanto sonega impostos e compra
fiscais. Muniz arruma emprego no prédio para colegas e cobra delas comissão,
expediente estendido para os feirantes, já que leva suas “meninas” para
comprarem nas mãos deles. E Nogueira vende pedra em embalagem de videocassete, orégano
por erva medicinal, afana cartões de créditos, e outros delitos do naipe. A
comédia, que tem roteiro assinado por Mourão e Nogueira, casados na época – e não
sei se ainda hoje -, imprime um ritmo esperto sobre o famoso jeitinho
brasileiro, em que cada um quer passar a perna no outro – e daí tanto faz se é
marido e esposa, irmão e irmã, mãe e filho, patrão e empregado, amigo e amigo. O filme marcou a volta ao cinema da saudosa Myriam Muniz, que estava há quinze anos
afastada dos longas - seu trabalho lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz no
Festival de São Vicente; o filme foi o vencedor também de Melhor Direção no
Festival de Cuiabá. Mara Mourão apresentou timing para a comédia nesse Alô?!,
ainda que depois dele intercalasse filme do gênero como o rotineiro Avassaladoras (2002)
com documentários premiados e saudados pela crítica, Doutores da alegria (2005)
e Quem se importa (2012). Em Alô?! podemos matar saudades de Betty Lago,
falecida precocemente aos 60 anos, e, sobretudo, conferir os talentos de
Herbert Richers Jr e Wellington Nogueira, ótimos e impagáveis em seus personagens.
domingo, 17 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (017)
Perdido em Sodoma (1982)
Direção: Nilton Nascimento
Direção: Nilton Nascimento
Se alguém ainda duvida de que havia algum tema, algum assunto,
algum acontecimento - seja cotidiano de qualquer página de jornal ou histórico
- que não fosse interessar aos produtores e diretores da Boca do Lixo está
muito enganado. E vem muito daí o fascínio que aquele polo de produção paulista
das décadas de 1970 e 80 exerce até hoje.
Afinal, onde já se viu um pedaço que agregasse tantos gêneros e
subgêneros com os mais diferentes argumentos e roteiros? E, ainda, com
diretores das mais diferentes linhagens e quilates? Por isso, nada de novo no
front a Boca ter trazido para as telas sua visão de Sodoma e Gomorra. Aliás,
até bastante coerente, né? Mas não pense que a visão sobre as cidades amaldiçoadas e condenadas
à destruição pela ira de Deus por causa de seus pecados se restringiu, pela lente da Boca, apenas as babeis bíblicas não. Aqui é a própria São Paulo e o Rio de Janeiro, com seus inferninhos e infernões, que reencarnaram a perdição
incontrolável bíblica. Bom, estamos falando de Perdida em Sodoma (1983), de
Nilton Nascimento.
Em Perdida em Sodoma Nicole Puzzi é Marlene, uma jovem do
interior que chega a São Paulo em busca do pai rico que lhe manda mesada, mas não
conhece; e da mãe que a abandonou ainda criancinha. Depois do encontro ríspido com o pai, Marlene perambulará pela
noite de São Paulo e do Rio de Janeiro pelas mãos do cafetão Nassif em busca do paradeiro da mãe, veterana cantora da noite de
canções italianas e prostituta. Daí, trafega por boates com shows de striptease e de sexo,
casas de encontro e antros de prostituição. Tá aí a reencarnação dos pecados da
Sodoma do título. O filme começa na própria Sodoma, com direito a Zilda Mayo de Pitonisa e tudo - e com cena de sexo explícito,
aparentemente enxertada; outras acontecerão durante a trama. Depois desse prólogo, a trama se situa em São Paulo e, mais adiante, no Rio de Janeiro. Daí, a
gente já fica imaginando o que motivou atores como José Lewgoy e, sobretudo,
Juca de Oliveira, embarcarem nessa canoa. Ok, o explícito pode ter vindo
depois, mas Juca, por exemplo, protagoniza cena pra lá de patética em uma boate, algo
como um sub-sub-Rio Babilônia (1982), de Neville D´Almeida. O filme tem como principal
destaque a façanha de ter reunido muitas musas da Boca – a protagonista Puzzi, pra variar lindíssima; mais Aldine Müller, Zilda Mayo, Sílvia Gless, Maristela Moreno, Tânia Gomide,
Lia Furlin, Noelle Pinne, e ainda a carioca Alcione Mazzeo. Só que se transformou em mezzo pornochanchada mezzo pornô sem
um décimo do talento dos verdadeiros realizadores do gênero. No caso aqui, dirigida pelo
gaúcho radicado em solo paulista Nilton Nascimento, que foi de trajetória cinematográfica de interesse neo-realista até cair de boca no filão pornográfico como produtor dos filmes do
filho, Carlos Nascimento, que assina a fotografia desse Perdida em Sodoma.
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (016)
Permanência (2014)
Direção: Leonardo Lacca
Direção: Leonardo Lacca
Falar da importância do cinema de Pernambuco hoje é chover
no molhado. Há muito, crítica e público voltam os olhos para o estado,
sobretudo para Recife, polo de produção que se impôs para todo o país pela
qualidade de seus realizadores e filmes. São muitos os nomes: Lírio Ferreira,
Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Kleber Mendonça, Daniel Aragão,
Gabriel Mascaro. E também, Leonardo Lacca. Diretor de vários curtas, como
Interferência (2004), Ela morava na frente do cinema (2011), Décimo segundo
(2007), e Ventilador (2015), Permanência (2014) é sua estreia em
longa-metragem. O filme recebeu cinco prêmios no Cine PE, Festival de Recife:
Melhor Filme, Atriz (Rita Carelli), Atriz Coadjuvante (Laila Pas), Ator
Coadjuvante (Genézio de Barros) e Direção de Arte.
Em Permanência Irandhir Santos é um fotógrafo que sai do
Recife para a abertura de sua primeira exposição individual em São Paulo. Daí,
hospeda-se na casa de sua ex-namorada, Rita Carelli, agora casada com Sílvio
Restiffe. Esse reencontro afetará os sentimentos de todos esses personagens. Em
seu primeiro longa, Leonardo Lacca aposta muito mais no mundo interior de cada
personagem do que em qualquer outro tipo de ação externa. Elas até acontecem,
mas são miúdas. Só que de miúdas não tem nada as entrelinhas e os subtextos
pelos quais a trama e aquelas pessoas trafegam. Em um primeiro momento poderia
se pensar em sentimentos internos que estão submetidos apenas a acontecimentos
pretéritos, mas aos poucos vamos percebendo que o externo também se impõe, principalmente
pelo novo estado de coisas: há um novo casal e o protagonista está alijado
dessa história; há o momento da primeira exposição, em metáfora paradoxal, já
que o personagem não parece nem um pouco à vontade de se mostrar; há o
relacionamento com o pai amoroso, Genézio de Barros, mas que não o assume para
a família oficial; há o breve envolvimento com a bela assistente da galeria,
Laila Pas; e há o deslocamento da Recife natal e a impessoalidade da megalópole
São Paulo. Em determinado momento, a dona da galeria, Sabrina Greve, diz para o
fotógrafo que “menos é mais”. E parece ser nisso que Lacca acredita, pelo menos
para tecer a teia desse reencontro, que se revela mais pelo não dito e pelas
informações negadas ao espectador por inteiro, ainda que sempre sugeridas ou
deixadas aqui e acolá como pistas. Incomoda o fato da nudez das atrizes, inclusive
frontal, enquanto o protagonista é poupado. Poderia até ser uma leitura para
mais uma recusa paradoxal em relação ao fotógrafo que está para "se mostrar" em exposição para o público, mas o desconforto com essa opção estética se impõe. Só depois de assistir esse Permanência é que fui saber que ele é uma retomada
da história e dos personagem do curta do cineasta, Décimo segundo - vale a pena assistir também ao curta para ver se o tal pretérito dos personagens será revelado ou se as tais mais informações continuarão "escondidas" pelo roteiro.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (015)
A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem lei (1981)
Direção: Agenor Alves
Direção: Agenor Alves
O baiano radicado em São Paulo Agenor Alves fez história.
Afinal, é o cineasta negro que, até agora, mais dirigiu longas no cinema
brasileiro, só perdendo para o pioneiro Cajado Filho, carioca que nas décadas
de 1940 e 50 dirigiu cinco. Agenor Alves subiu ao pódio em lugar mais alto, pois
dirigiu sete: Tráfico de fêmeas
(1978), Noite de orgia (1980), A volta de Jerônimo no sertão dos homens sem
lei (1981), As prisioneiras da ilha
do diabo (1981), A cafetina de
meninas virgens – O kapanga (1982, codireção de Guilermo Vera), Lídia e seu primeiro amante (1982), Eu matei o Rei da Boca (1987). Depois de
atuar, estreia como cineasta em Tráfico de fêmeas, e a partir daí dirige filmes eróticos, aventura e policial.
Em A volta de
Jerônimo no sertão dos homens sem lei nosso herói, Antônio Fonzar, acabou de
chegar da cidade com a esposa a tiracolo, Fátima Celibrini, para a lua de mel
em sua fazenda. Só que a moça resolve passear pelas terras, encontra uma gangue
de bandidos, que a estupra e mata. Os ladrões estavam a caminho de um golpe no
fazendeiro vizinho de Jerônimo, chefiados pelo homem de confiança do ingênuo
patrão, Hélio Souto na pele de um cigano, que foi entregar o gado em um
matadouro, mas com a intenção de botar a mão na grana e dividi-la com seus
comparsas. Com isso, Jerônimo sai no encalço deles para vingar a morte da
esposa, acompanhado do fazendeiro e amigos da região, que tentam reaver o
dinheiro e também fazer justiça. Aqui nesse filme é melhor esquecer
Cerro Bravo, Moleque Saci, Aninha, e todo aquele ar juvenil do seriado da Tupi –
para quem é da época – de Jerônimo, o herói do sertão (1972/73), protagonizado
por Francisco di Franco e Canarinho – e mesmo o longa homônimo dirigido por C.
Adolpho Chandler em 72. Pois imagina se um dia algum espectador da época iria
imaginar Jerônimo todo dengoso na cama com a esposa – que não é sua mítica
noiva Aninha do seriado e do primeiro longa-, em filme com cenas de sexo e salpicado de nudez dos mais diferentes quilates? O argumento e o roteiro são assinados pelo
próprio Agenor Alves, mas o que ele fez mesmo foi se apossar, do seu jeito. do
lendário herói do campo para fazer um filme de aventura sim, mas, como é
produção da Boca do Lixo, aproveitar cada situação para tirar a roupa das moçoilas
– e aí vale tanto uma cena esdrúxula na zona da cidade ou até as bem filmadas cenas
de sexo entre Fonzar e Celebrini, e também entre Souto e sua parceria. Aliás,
os grandes destaques são a câmera e a fotografia espetacular de Pio Zamuner,
realmente um mestre na captação daquele universo rural – pena que a trilha
sonora onipresente fique o tempo todo querendo destruir o mostrado, já que não
se cala um só momento. Esse filme é um exemplo inconteste de como todo o
universo possível de gênero e subgênero, trama e situações, foi reapropriado
pelos produtores e diretores da Boca do Lixo. Mesmo que na cara dura como foi
nesse A volta de Jerônimo.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (014)
Jerônimo, o herói do sertão (1972)
Direção: C. Adolpho Chadler
Direção: C. Adolpho Chadler
É praticamente impossível para quem foi criança e
adolescente no início da década de 1970 e espectador da Rede Tupi não ter
acompanhado as aventuras de um intrépido e corajoso justiceiro de moral ilibada na série Jerônimo, o
herói do sertão (1972/73). Mais difícil ainda esquecer Francisco di Franco, em
seu porte viril, como o protagonista, e seu parceiro Moleque Saci, interpretado
com gaiatice por Canarinho – e mais a heroína Aninha (Eva Christian). Na
verdade, a saga do cavaleiro que enfrentava um temido coronel e seus capangas
na cidadezinha de Cerro Bravo já havia conquistado muitos na década de 50, na
radionovela homônima interpretada por Milton Rangel. Em 1984, o SBT tentou
ressuscitar o herói na novela Jerônimo, também protagonizada por Di Franco, com
Eduardo Silva como o moleque e Susy Camacho como Aninha, mas não repetiu o
sucesso. E é esse herói do campo que o cineasta carioca C Adolpho Chadler levou para as telas do cinema também em 1972.
Em Jerônimo, o herói do sertão nosso cavaleiro destemido e seu
parceiro Moleque Saci são chamados pelo delegado e por um empresário para
recuperarem um grande diamante, o Rainha do Sul, roubado por um bando de
criminosos. A trilha vai levar a dupla até a fazenda da velha Tabarra e seus filhos,
que em um primeiro momento se apresenta como uma bondosa mãe de família, para
depois se revelar como uma vilã implacável. O que Jerônimo nem imaginava é que
sua noiva Aninha viria em seu encalço e se tornaria refém dos bandidos. Se na
televisão, lá nos idos de 70, a saga de Jerônimo já era vista por espectadores
mirins como eu como um tanto infantilizada, imagine a impressão assistindo a
esse filme da mesma época? Pois C. Adolpho Chadler levou para as telas o universo criado nos anos 50 por
Moysés Weltman, que assina o argumento e o roteiro do filme, sem injetar adrenalina necessária tanto na trama
quanto na direção. Também ator, ele mesmo encarna o herói, ao
lado de Osório Polico como o Moleque Saci e Elizabeth Baker – ao que parce filha de
Adolpho, pois consta em registros com Elizabeth Chadler – como Aninha. O grande
destaque mesmo é Yara Cortes, que surpreenderia com sua perfeita vilã em A rainha diaba
(1971), de Antônio Carlos da Fontoura – em contraposição a inúmeros personagens
de mãezona nas novelas de TV -, vivendo aqui também uma daquelas vilãs implacáveis
e sanguinárias de faroeste com toda a pompa. A cena em que ela se despe do vestido
de chita e rendinhas de velhinha amorosa para revelar a calça comprida, botas e revólver na cintura é
impagável. Outro destaque no elenco é a beleza de Marly de Fátima, como a a rebelde e única filha do bando, uma das musas do cinema popular. Pena que Chadler, que se deu tão bém como diretor no policial de espionagem Os
carrascos estão entre nós (1968), tenha demonstrado aqui mão tão frouxa para um
filme que poderia ter sido um vigoroso representante do cinema brasileiro de aventuras.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (013)
alguém... (1978)
Direção: Julio Xavier da Silveira
Direção: Julio Xavier da Silveira
André Carneiro (9/05/1922 - 4/11/2014) tem trajetória importante como poeta, contista, romancista, artista plástico e fotógrafo – como poeta foi nome de destaque na Geração 45, ao lado de mestres como João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa,
Ariano Suassuna, Mário Quintana e Lygia Fagundes Telles. E foi um dos pioneiros e maiores
escritores do gênero ficção científica no país. Nascido em Atibaia, São Paulo,
foi ligado ao cineclubismo e dirigiu filmes experimentais. Um deles é o belo Solidão
(1951), representante do Brasil no festival de cinema amador na Inglaterra. É
de sua autoria o conto "Mudo", adaptado para o cinema no primeiro e único longa
do cineasta paulista Júlio Xavier da Silveira, alguém... (1978).
Em alguém... Nuno Leal Maia é o estranho e enigmático Mudo,
um camponês que vive e trabalha nas terras do fazendeiro Henrique Cesar e sua
família formada pela esposa Rachel Araújo, em ótima composição, e os filhos do casal Denis Derkian e Myriam Rios - depois ainda chega o professor de francês Ewerton de Castro. Mudo fica horas passando a mão em plantações,
como frutas e flores, e olhando fixamente para elas. O resultado? Jabuticabas,
uvas, pêssegos e flores atingem tamanhos enormes, independentemente de suas
estações climáticas específicas. Tido como excêntrico e até
mesmo como santo por alguns moradores rústicos da região, é na Casa Grande que
ele vai causar ebulição ao despertar o interesse da adolescente rica, que vai
iniciar uma relação com o rapaz, que poderá significar sua rendição ou
perdição. Alguém... procura instalar um registro sério e de ambiência intimista, no
mundo telúrico de Mudo em contrapartida ao mundo de whisky, Elvis Presley, vitrola e
lambreta da família. Tudo situado em universo com elementos do fantástico – as
mutações na natureza sem explicação lógica - e um despertar da juventude nos anos 1950. Bom, mas aí Júlio Xavier da Silveira comete o primeiro pecado: a escalação de Nuno Leal Maia como o protagonista. Nuno é ator
de talento e uma das caras mais legítimas do cinema dos anos 70 e 80, mas é
impossível vê-lo em volta de suas uvas verdes enormes sem vir imediatamente à cuca
seu matuto de O bem dotado – o homem de Itu (1977), de José Miziara. Daí fica
difícil embarcar de verdade naquele universo proposto, já que a comédia rasgada de Miziara fica o tempo todo perambulando as ideias e embaçando o clima - os dois filmes são mais ou menos da mesma época, mas como O bem dotado foi sucesso e esse não, o primeiro se impõe no imaginário, Segundo: a direção não
consegue ligar, em sentido orgânico, os diferentes planos da narrativa. O universo de Mudo e da casa grande até que sim por causa do fascínio recíproco entre ele a personagem de
Myriam Rios – linda e muito antes de se transformar na política homofóbica
atual; mas o mundo dos outros moradores, camponeses que destilam maledicência
em seus repentes sobre os personagens, fica descolado do resto. Com tantos descompassos, alguém... é
filme que fica pelo meio do caminho, ainda que ao terminar a gente nem saiba mesmo por
onde andou ou ficou.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (012)
O gato de botas extraterrestre (1990)
Direção: Wilson Rodrigues
Direção: Wilson Rodrigues
Heitor Gaiotti de gato com direito a rabão grosso e look
antropofágico de A bela e a fera, de Jean Cocteau; Felipe Levy de rei que faz
cara de que não acredita minimante nesse figurino de manto, cetro e coroa; Zezé
Motta transformada em coruja; Joffre Soares de feiticeiro com estampa
psicodélica; um elenco que junta Maurício Mattar, Tony Tornado, Zé do Caixão e Tônia
Carreiro; e tudo embalado pela trilha sonora de Blade Runner – o caçador de androides.
Ah, e ainda tem nave espacial, que parece ter sido feita mesmo de papel crepom. E o nome do
filme - que é por si só uma maravilha? O gato de botas extraterrestre. Pois é, o
baú do cinema brasileiro não é para amadores e tampouco minimamente assemelhado
a essas comédias em pencas atuais que fazem as bilheterias tilintarem. Quer
coquetel mais saboroso que esse? Ok, ok, a receita pode desandar ali e acolá, mas é
muita criatividade nonsense, o que valeria anos de aprendizado por
correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro para inúmeros e empostados cineastas
atuais que acham sempre que estão reinventando a roda. O responsável por isso
tudo? O mineiro radicado em São Paulo, Wilson Rodrigues, diretor e também
produtor da façanha.
Em O gato de botas extraterrestre somos conduzidos à fábula
de Perrault reescrita pelos Irmãos Grimm, em adaptação de Rubens F. Luccheti –
só que dessa vez o bamba parece ter ligado o foda-se e o roteiro morno contradiz
sua habitual mente criativa. Quem deita e rola mesmo é o diretor – ainda que isso não signifique injeção de adrenalina. Na história, o dono de um moinho morre e deixa
a herança para os três filhos: a propriedade para o mais velho; um burro para o
do meio; e um gato para o caçula. Só que não é um gato qualquer não. Ele tem o
tamanho dos marmanjos, caminha em duas pernas, e fala baldes – ainda que
ninguém estranhe nada disso, seja a realeza, seja a plebe. Ele então bola um
plano rocambolesco para mudar a vida de seu dono miserável - um Maurício Mattar
na extrema beleza de seus poucos mais de vinte anos, dois depois de estampar –
para alegria quase geral - o pau em close em O cinema falado (1986), de Caetano
Veloso. O tal quiproquó o fará se tornar um marquês riquíssimo, dono de terras
e de castelo, e pretendente natural à
mão da filha do rei – uma Flávia Monteiro de princesa só no estilo caras e bocas. Bom, mais aí tem o
detalhe extraterreste do título, né? E que diabos de recurso foi esse enxertado
na clássica fábula? Ora ora ora, melhor não revelar, pois isso torna tudo ainda
mais delirante. O filme é creditado no "Dicionário de
Cineastas Brasileiros", de Luiz F. A Miranda, com a data de 1988 – a publicação sempre prioriza a realização; mas parece que o lançamento foi só depois, em
1990. Produção infanto-juvenil que mais parece viagem de LSD em slow motion –
são inacreditáveis os longos tiriricotés de rabos abanando do tal bichano pelos
campos -, O gato de botas extraterrestre, se degustado com diversão zombeteira e piscadela de olho, pode se transformar em momento
único. Mas aí vai depender do gosto do freguês.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Filmes Brasileiros assistidos em 2016 (011)
O predileto (1975)
Direção: Roberto Palmari
Direção: Roberto Palmari
São inúmeros os filmes brasileiros que, parece, entraram num
buraco negro e ficaram anos-luz de distância do público, pelo menos o atual.
Como é o caso de O predileto (1975), primeiro longa do diretor paulista Roberto
Palmari, ainda que premiado como Melhor
Filme, Ator, Roteiro e e Fotografia no
Festival de Gramado, e também pelo INC e pela APCA – o episódio As três virgens do longa Contos
eróticos (1976) e Diário da província (1977) são seus outros filmes. Nada mais
injusto, pois O predileto é filme vigoroso desse que foi um dos homens da
história da televisão brasileira – foi um dos fundadores da TV Excelsior, com
passagem importante também pela Tupi. E só por ter dado o protagonismo para o
notável Joffre Soares, como outros cineastas espertos também fizeram em filmes
ótimos naqueles anos 70, como George Sluizer em A faca e o rio (1972),
Luiz Paulino dos Santos em Crueldade mortal (1976), Carlos Diegues em Chuvas de
verão (1977, e Osvaldo de Oliveira em O caçador de esmeraldas (1978)), já seria
uma bola dentro. O filme é uma adaptação
do romance Totônio Pacheco, de João Alphonsus, com roteiro de Palmari e do
genial Roberto Santos.
Em O predileto Joffre Soares é o velho autoritário, machista
e irascível coronel Pacheco. Com a morte de sua esposa, seu filho Othon Bastos
retorna à velha fazenda para um áspero reencontro com o pai. Convencido a
passar alguns dias na cidade, sobretudo pelo amor que tem pelo neto, o coronel
encontra na casa do filho a oposição da nora Célia Helena, que mal suporta a
presença do sogro e está interessada
mesmo é na herança que poderá receber. No asfalto, a única companhia que
encontra, além do neto, é do vigia de obra Abrãao Farc, até que conhece a casa
da cafetina Wanda Kosmo e se encanta com Suzana Gonçalves, a prostituta Coló. O
velho Pacheco é um homem rude de outros tempos, com frequência exalta seu
orgulho do avô escravagista e de como derrubou sua primeira negrinha e virou
homem. E é esse seu mundo sem docilidades que se choca até mesmo com o mundo miserável e ordinário
das prostitutas da mãezinha Kosmo. Dentre elas, a Coló de Suzana Gonçalves, em maravilhosa
atuação – com um aparente desleixo de composição alcançado com rigor - de uma
atriz que abandonou a carreira artística para retomá-la só muitas décadas
depois. O predileto conta com grandes atuações femininas, como a amarga e
moralista de Célia Helena, a voluptuosa empregada ofendida de Ruthinéa de Morais – tenho paixão por essa
atriz -, e a mercantilista cafetina de Wanda Kosmo. Mas é na dobradinha
Joffre/Suzana que o filme atinge fervura máxima. O predileto é filme que merece
ser mais conhecido.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (010)
Uma longa viagem (2011)
Direção: Lucia Murat
Direção: Lucia Murat
Lucia Murat é um caso único dentre os cineastas, homens ou
mulheres, pois a sua história pessoal já é um roteiro pronto – e já virou
vários filmes. Durante a ditadura civil-militar, ela atuou na luta armada, foi
presa e torturada, e ficou encarcerada durante três anos e meio. O primeiro
sobre o tema e a partir dessa sua história, Que bom te ver viva (1988), é ainda
o melhor deles. Depois dirigiu outros filmes, e em mais três retornou ao seu
drama ou contexto pessoal e também de todo uma geração e um país – Quase dois irmãos
(2004), Uma longa viagem (2011), e A memória que me contam (2012). A diferença
deste Uma longa viagem é que nos outros ela usou atores para encarnarem ela e
seus companheiros de luta, já aqui, ainda que também utilize um ator, Caio Blat,
ela mesma está em cena, em primeiríssima pessoa.
Uma longa viagem é um registro familiar sobre ela e dois de seus
irmãos. Com a morte do mais velho, Miguel, ela recupera as cartas que o mais
novo, Heitor, um andarilho pelo mundo, escreveu para a família de diferentes
países e continentes. Como Miguel era um médico com forte atuação social e
Lúcia se tornara uma militante política, a mãe dos três resolve mandar Heitor
para fora do país, receosa de que ele seguisse os passos da irmã. E é aí que
ele inicia uma longa viagem tanto pelo mundo quanto pelas drogas, em seus mais
diferentes formatos e calibres. A época que Heitor escreve as tais cartas é grande parte do período que Lucia está presa,
na década de 1970, daí, com isso, ela refaz não só a história de uma família,
mas também do período mais sombrio do Brasil. Para contar essa história, a
cineasta se coloca em cena junto com Heitor, que depois de tantos experimentos
tornou-se esquizofrênico - informação que o filme não fornece -, ainda que bem-humoradamente lúcido. E coloca em cena
também o ator Caio Blat, que encarna o irmão na juventude, não só escrevendo as
cartas, como também as lendo e interpretando. O maior achado do filme reside
exatamente nesse recurso, já que Blat atua em monólogo sobre projeções, seja de
fotos ou de vídeos, o que causa belo efeito cinematográfico, somado à uma maravilhosa composição do ator. Uma longa
viagem é um filme premiado e comentado - no Festival de Gramado de 2011 ganhou, inclusive, o prêmio máximo de Melhor Longa e também o de Melhor Ator e Especial
do Júri. Muitos se emocionam e se divertem com o depoimento de Heitor e suas
cartas, já para mim esse embarque não se completa. Penso que o maior, e melhor,
atrativo está mesmo na estética que a cineasta adotou para fazer a sua viagem e
nos fazer conduzir por ela.
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (009)
Meu destino é pecar (1952)
Direção: Manuel Peluffo
Direção: Manuel Peluffo
Assim como aconteceu no Rio de Janeiro com a Cinédia e a Atlântida,
São Paulo também investiu em estúdios de cinema na primeira década do século
passado. A ambição dos paulistas era grande, nada menos que a industrialização
do cinema brasileiro. O mais bem-sucedido foi a Vera Cruz, mas podemos citar
também a Maristela e a Multifilmes. Nas décadas
de 1950 e 60, a Maristela produziu cerca de uma dezena e meia de longas, e Meu
destino é pecar (1952) é um de seus títulos. Primeira adaptação cinematográfica
de Nelson Rodrigues, aqui sob o pseudônimo de Suzana Flag, o filme é dirigido
pelo uruguaio Manuel Peluffo. E se os outros estúdios tiveram suas musas, como Carmen
Miranda e Gilda de Abreu na Cinédia; Eliana Macedo e Adelaide Chiozzo na
Atlântida; e Eliane Lage e Tônia Carrero na Vera Cruz; a Maristela também teve
as suas, como Vera Nunes e Antonieta Morineau.
Em Meu destino é pecar, Antonieta Morineau é Leninha, bela
jovem obrigada pela madrasta a se casar com um homem que não ama, Paulo (Rubens
Queiróz), devido aos problemas financeiros de sua família – inclusive para
comprar uma perna mecânica para a irmã mais nova, Netinha (Nair Pimentel). Daí
vai para ele com sua fazenda, onde tem que enfrentar a memória
fantasmagórica de Guida, a primeira esposa, presença onipresente e sufocante na
casa e na família composta, dentre outros, pela obsessiva prima do marido Lídia
(Zilah Maria) e pelo irmão cafajeste e sedutor dele Maurício (Alexandre Carlos).
Depois desse Meu destino é pecar várias obras de Nelson Rodrigues chegaram ao
cinema, e pode-se, inclusive, notar nelas uma certa identidade estética na
forma de filmá-las e no estilo de interpretação de seus personagens. Aqui, a
condução é pesada, com certo ranço teatral, ainda que não descarte belos planos,
como a visita de Leninha ao mausoléu da família do marido debaixo de chuva
torrencial. Mas no geral Manuel Peluffo não consegue imprimir nem os elementos
de horror que impregnam a narrativa, e nem faz uma eficaz direção de atores. O
exemplo maior está na personagem Lídia, a mais fascinante da história, prima de
Paulo obcecada pelo fantasma de Guida, que tem na interpretação de Zilah Maria
um registro sem nuances – Esther Góes nadaria de braçada em interpretação
maravilhosa na minissérie homônima realizada pela Globo em 1984. Já Antonieta
Morineau está bem, e linda - pena que atuou só em mais um filme, o anterior Presença
de Anita (1951), de Ruggero Jacobbi, abandonando o cinema depois.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (008)
A prisão (1980)
Direção: Osvaldo de Oliveira
Direção: Osvaldo de Oliveira
Filmes sobre presídios formam um subgênero potente do cinema
mundial e que fazem as bilheterias tilintarem – os americanos adoram. E quando a ação se passa em presídios femininos
aí é que os marmanjos de plantão salivam em combustão. Sobretudo se forem as
produções da Boca do Lixo nas décadas de 1970 e 80, pois daí é certo que além
das brigas arranca-cabelo, as moças vão mostrar o corpo fartamente, seja em
banhos de sol, seja em cenas de sexo entre elas. Dessa produção do período no
pedaço paulista podemos citar dois exemplos bacanas: Escola penal de meninas
violentadas (1977), de Antônio Meliande; e Fêmeas em fuga (1985), de Michele
Massimo Tarantini. E, acima de todos, temos A prisão (1981), de Osvaldo de
Oliveira, o mais famoso deles, inclusive com carreira internacional. É que o
filme rodou mundo em uma cópia, não sei se pirata ou não, com as belas/feras
dubladas, e que é a versão assistida com legenda em português. Veterano nome do
cinema brasileiro com passagem por diferentes áreas técnicas - com importante
carreira como fotógrafo -, como diretor o Carcaça, como era chamado, diversificou-se em muitos gêneros e subgêneros: dramas, comédias, policial, faroeste, cangaço,
sertanejo, aventura, sátira, e, claro, os filmes de presídio.
Em A prisão, a loiraça – ainda que as partes pudicas traiam a
psiquê blondie – Maria Stela Splendore é a diretora lésbica e sádica do
recinto, que comanda sua detentas com direito a sessão de torturas e de
amassos. Tudo isso para espanto de sua assistente, a bela Neide Ribeiro, a
única estrela do elenco que não protagoniza cenas eróticas, no máximo aparece
nua em uma cena. Entre as detentas têm piteuzinhos como Márcia Fraga, Daniele
Ferrite e Nádia Destro, todas feitas de gato e sapato pela diretoria, que
inclui Marta Anderson – a melhor do elenco – como uma enfermeira tresloucada
viciada em éter. Por fim, tem ainda Meiry Vieira, como uma escravagista que
compra as meninas em dólar para seu desfrute sexual. A prisão não economiza em
cenas de torturas, nudez, sexo entre as garotas ou entre elas e as carcereiras.
E quando a ação avança, cenas de sexo explícito também marcam ponto na
narrativa. Todas aquelas mulheres deixam de ser gente para se transformarem em
objetos de prazer e de sadismo, não à toa são rebatizadas e chamadas por
números e não mais por nomes. Para além do gozo e da exploração de seus corpos,
há, no roteiro de A prisão, um entendimento crescente de que aquele mundo é
real e que toda aquela gente está submetida apenas a sua sorte. E isso dentro ou fora da prisão, seja como encarceradas, como fugitivas ou como mercadoria comprada, pois quando não penam e morrem entre os muros, penam e morrem sob as garras de seus novos donos. Quando dão o último suspiro,
assassinadas por colegas, pela diretoria ou por quem as compra o destino é a
vala rasa ou como comida de peixe. E daí, vai se instalando um certo desconforto
frente ao mostrado, num misto de tristeza e excitação doentia.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (007)
Os carrascos estão entre nós (1968)
Direção: C. Adolpho Chadler
Direção: C. Adolpho Chadler
O baú do cinema brasileiro é mesmo infinito e inacreditável.
Sempre que se fala sobre nazistas em nossos filmes vem de imediato o notável
Aleluia, Gretchen (1975/76), de Sylvio Back. Mas aí tem esse Os carrascos estão
entre nós, que C. Adolpho Chandler dirigiu, e protagonizou ao lado de Atila
Iório, em 1968. Há muito sei sobre esse filme, mas só agora tive oportunidade
de assisti-lo. E as surpresas só aumentam ao ler a ficha técnica. Afinal, o
filme foi produzido pela Cinedistri de Oswaldo Massaini, e ainda tem como
associados a união daqueles que foram os dois galãs mais famosos das chanchadas
da Atlântida, Anselmo Duarte e Cyl Farney. Não é demais! A variedade das produções da Boca do Lixo é
um capítulo a parte na história do nosso cinema, e ainda tem desavisado que
acha – sim, ainda tem gente que pensa isso -, que por lá foi só mesmo
filme de mulher pelada.
Em Os carrascos estão entre nós, em 1944 alguns nazistas se
refugiam no Brasil, com direito a transporte em submarino, operação plástica em
pleno bordo, e explosão do cujo para não deixar pistas do refúgio dos monstros
de guerra. E com direito também a um Átila Iório encarnando um alemão com
sotaque e tudo. Sim, porque se no Cinema Novo ele foi o nordestino retirante de
Vida secas (1963), na Boca o buraco é mais embaixo, e aí ele ganha cabelo
aloirado e vilania germânica. No encalço desses criminosos, que se escondem no
país e agem em uma secreta irmandade chamada de Aranha, estão dois policiais detetives,
um brasileiro interpretado pelo próprio Chadler, e um americano interpretado
pelo gringo Larry Carr. Esse último acaba por se envolver com a misteriosa Eva,
em bela aparição e atuação de Karin Rodrigues. O filme conta com vigorosa fotografia p&b de
Afonso Viana e a elegância de Erlon Chaves na trilha musical, o que já nos
apresenta a ambiência que permeará o mostrado já nos créditos. Com sua
narrativa em labirinto, que mais esconde que clareia, Os carrascos estão entre
nós é uma produção curiosa sobre um tema apropriado, já que sabemos que a
América do Sul foi mesmo destino para os criminosos nazistas, como foi o caso de
Josef Mengele no Brasil - o terrível médico do Riech conhecido como "Anjo da Morte". E muito sintomático que a Boca do Lixo, nicho
riquíssimo para a proliferação da diversidade do cinema brasileiro, tenha se
detido sobre o tema.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (006)
Sinal Vermelho: as fêmeas (1972)
Direção: Fauzi Mansur
Direção: Fauzi Mansur
Fauzi Mansur é mesmo um cineasta que merece ser mais
comentado. Não só em relação aos seus pares dentro do modelo de produção da
Boca do Lixo, mas no cinema brasileiro como um todo. Há uma elegância na forma
como filma e apresenta seus personagens que o torna quase único na Boca nesse
registro. E há ainda um viés existencialista muito perceptível em seus filmes,
que vai desaguar com toda a sua força no seu maior momento, A noite do desejo (1973).
Os planos são pensados, nunca atirados a rodo. A fotografia não tende a realçar
o mostrado, mas embuti-lo de significados, que, muitas vezes, não estão nas
falas e nem na ação, mas dentro da persona daqueles homens e mulheres que trouxe
á cena. E isso já está em seus primeiros filmes, como Sinal vermelho: as fêmeas
(1972), que marcou a estreia de Vera Fischer no cinema.
Em Sinal vermelho: as fêmeas vemos um Sérgio Hingst – um dos
atores mais interessantes do nosso cinema - sisudo, ofendido e dissimulado. O
motivo ele conta para a esposa, a lindíssima Marlene França: a firma ganhou
muito dinheiro, inclusive ás minhas custas, e agora eles, a diretoria, resolvem
fechar o negócio, e eu, como fico? É aí que resolve aplicar um grande golpe
contra os ex-parceiros e para isso contrata uma turma da pesada chefiada por
Ozualdo Candeias e com a presença de um David Cardoso em crise. Depois do
roubo, ele coloca todos em uma casa de praia a fim de que a poeira abaixe. Ficam lá a esposa, a filha, Vera Fischer, e o
bando – além de Candeias e Cardoso, Roberto Bolant, Enoque Batista. O que seria
apenas um esconderijo vira uma bolha de alta combustão, inclusive sexual. E,
mas que isso, nada é tão preto no branco como aparenta. Sinal vermelho: as
fêmeas é filme policial jamais rasteiro, e não muito simples de acompanhar, já
que vai e volta em sua narrativa, exigindo atenção da plateia. Fauzi Mansur não
facilita o jogo ao público de seu cinema popular, aposta, acertadamente, na sua
inteligência.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (005)
Coração materno (1951)
Direção: Gilda de Abreu
Direção: Gilda de Abreu
Gilda de Abreu é capítulo importante na história do cinema
brasileiro, e, para as mulheres, fundamental. Afinal, é uma das pioneiras na direção de longa-metragem no país; Cléo de Verberena foi a primeira com O mistério do
dominó preto (1930), e Carmen Santos começou a dirigir antes de Gilda seu
sonhado Inconfidência Mineira (1939/48), mas só o concluiu depois. E Gilda não
debutou nas telas dirigindo um filme qualquer, foi nada mais nada menos que o
arrasa-quarteirão O ébrio (1946), arrastando multidões aos cinemas na época. O
filme é uma adaptação da canção homônima de sucesso - e da peça originada
dela - de seu marido, o cantor e compositor popularíssimo Vicente Celestino, protagonizado
pelo casal. Seu passaporte para o cinema foi um caminho derivado dos palcos,
onde se consagrara como cantora de operetas, além de empresária e
diretora. Soma-se a isso o fato de ter causado também em sua estreia como atriz
de cinema no bem-sucedido Bonequinha de seda (1936), de Oduvaldo Vianna, uma
produção do estúdio carioca Cinédia, o mesmo que produziu sua estreia como
cineasta. Com essa carreira avassaladora, Gilda então leva, em seu segundo
longa, mais uma adaptação de uma canção do marido, que também já originara peça
de teatro, Coração materno (1951).
Coração materno, a música, seria prato cheio para um filme
de horror, afinal conta a história tenebrosa de um casal em que, para provar
seu amor, a mulher exige do amado que ele arranque o coração de sua própria mãe
para oferta-la. Só que nas mãos de Gilda de Abreu essa história
maravilhosamente sugestiva e horripilante virou um melodrama dos mais
carregados, e o tal gesto tresloucado não passa de uma simbologia na trama –
que é melhor não revelar. Coração materno é a história de amor entre um
camponês bronco e uma jovem rica prometida em casamento a um conde falido.
Maliciosa, ela, Julieta, faz gato e sapato daquele que a amou desde criança,
até descobrir/assumir que também morre de amores por ele, Carlos, um homem
abandonado em uma igreja e criado pelo padre – por isso é conhecido como o
Enjeitado. Na época das filmagens, Gilda tinha entre 46/47 anos, e Celestino
entre 56/57, mas isso não os impede de encarnar jovens moços suspirantes de
amor, às voltas com encontros e desencontros, o que tira grande parte de
identificação com a história. Amor materno tem produção caprichada, com
cenários e figurinos condizentes com o pretendido, mas se afoga no roteiro
pesado – também de Gilda – e na interpretação carregada de Celestino. Infelizmente,
não chega perto do que foi/é O ébrio, o cartão de visitas do casal nas telas.
Um adendo: só em 2003 a história contada na canção Coração materno ganharia seu
registro de horror no acachapante curta Amor só de mãe, dirigido por Dennison
Ramalho.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (004)
O prazer do sexo (1982)
Direção: John Doo
Direção: John Doo
Berço por excelência do cinema popular, a Boca do Lixo
produziu muitos filmes de diferentes gêneros e subgêneros. Um deles foi as
famosas pornochanchadas. Só que pornochanchada é cinema popular, mas cinema popular
não é pornochanchada. É também - como se sabe pornochanchadas são aqueles
filmes em que tudo gira em torno de sexo gratuito sem acrescentar nada à
história, apenas pretexto para tirar a roupa das mulheres e mostrar peitinhos, coxas e bumbuns. Se a década de
1970 foi o período para a produção dessa enorme gama de filmes na Boca, quando entram
os anos 80 chegam os filmes pornôs. E aí, com o perdão do trocadilho infame, a
Boca cai de boca no filão, o que se torna um caminho sem volta. As musas em
quase sua totalidade abandonam o pedaço, e o mesmo vale para astros e alguns
cineastas. Outros diretores aderem ao novo estado de coisas assinando sob
pseudônimo ou não. O prazer do sexo (1982), de John Doo, se situa aí. Notável
diretor de filmes de horror, como o longa Ninfas diabólicas (1979), e o
episódio O gafanhoto (do longa Pornô, 1981), Doo também marcou presença como
ator em vários filmes – tem ótima atuação no clássico O pasteleiro (1981),
episódio dirigido por David Cardoso no longa Aqui, tarados!.
O prazer do sexo é mais uma parceria entre Ody Fraga e John
Doo, o primeiro no roteiro e o segundo na direção. Mas se a dobradinha
funcionou em outros momentos, aqui deu xabu, Mesmo porque o interesse maior dessa
vez é a junção da mais reles pornochanchada com os filmes de sexo explícito que
já batiam ponto na Boca. A estranha relação entre pai (Rubens Pignatari) e
filho (Carlos Milani), que só conseguem se divertir juntos em noites de sexo
com prostitutas, poderia até render caminho interessante vide a folha corrida
criativa da dobradinha Fraga/Doo se o modelo de produção fosse outro. E quando
na primeira cena ouvimos The winner takes it all do ABBA, e mais adiante One
day in your life com os Jackson 5, a gente até pensa que vem coisa boa. Mas não dessa vez, em que o fiapo de história –
os dois se apaixonam, o pai por Zaíra Bueno e o filho por Márcia Aoki, o que
desanda a velha parceria de farra – é recheado com cenas de sexo explícito que
nada tem a ver com a trama. Faz até pensar no famoso recurso de algumas produções
da Boca que enxertaram cenas explícitas em pornochanchadas depois de concluídas
no período para tentar faturar na bilheteria. Zaíra Bueno, sempre bela, assim
como em Coisas eróticas (1981) - o marco definidor do período pornô dirigido
por Raffaele Rossi - não participa das cenas explícitas. Sem saber para que
lado caminha, O prazer do sexo não vai para lugar nenhum, nem diverte como em
algumas pornochanchadas, nem excita. Ainda no elenco feminino, Ana Maria
Kreisler, como uma desinibida prostituta, e Áurea Campos como a governanta
Consuelo.
domingo, 3 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 2016 (003)
Até o último mercenário (1971)
Direção: Penna Filho
Direção: Penna Filho
O produtor, ator, roteirista e diretor paulista Ary
Fernandes parecia ter afeição pelo universo das forças armadas brasileiras, pelo menos por uma ideia de heroísmo que via em seus integrantes. Isso sem falar, claro, no apreço pela aventura, gênero importante habitado por heróis dos seriados da época que eram exibidos nas telas dos cinemas de rua. Na
década de 1960, criou o marco televisivo O vigilante rodoviário, série que fez
muito e merecido sucesso na época sobre a polícia rodoviária, revelou Carlos Miranda, o
Vigilante, e sobrevive até hoje em interesse fílmico. Depois, criou
ainda a série Águias de fogo, dessa vez sobre a força aérea. Por isso, nada
mais coerente do que produzir o longa Até o último mercenário em 1971, dirigido
por Penna Filho – com quem assina o roteiro – e protagonizado pelo mesmo Carlos
Miranda. Mas se em O vigilante rodoviário o interesse persiste até os dias
atuais é porque lá, além do pioneirismo histórico, havia um interesse em
desenvolver os personagens que cruzavam o caminho do herói em cada episódio, o que humanizava a narrativa. Já
aqui...
Em Até o último mercenário Carlos Miranda é o policial
destacado para descobrir, investigar e desbaratar uma quadrilha de
contrabandistas chefiada por Luciano Gregory e Marlene França – amada atriz e
musa que Ary descobriu ainda adolescente para o filme Rosa dos ventos (1957),
de Alex Viany, do qual era diretor de produção -, e mais alguns "habitués" do
gênero das produções da Boca do Lixo como Tony Cardi, Genésio de Carvalho e
Betinho. Há ainda a repórter que acompanha o caso enquanto suspira pelo
policial, estreia no cinema da bela Elaine Cristina; e seu irmão adolescente
aprendiz de detetive, Reginaldo Vieira, o Tuca da série televisiva. Mas não
pensem que o entrecho amoroso ou mesmo a prisão da quadrilha é que estão mais
valorizados na narrativa não - para se ter uma ideia, o policial segue os bandidos na espreita, mas de berrante camisa vermelha... O que a direção de Penna Filho estampa em holofotes garrafais é o
aparelhamento da polícia militar, com direito à cenas de treinamento/desfile de cães,
sala de instruções, exibição de maquinário e veículos de guerra, campanas, ataques
coreografados em grupos e etc. Isso tudo com direito a trilha sonora bélica, o
que, mais que constranger, deixa um gosto amargo já que aqueles – a época do
filme – eram os temidos anos de chumbo. Desconforto que aumenta ainda mais com
o texto de agradecimento final aos homens valorosos da polícia por manter a
Ordem e o Progresso do Brasil. Mesmo se dessemos desconto para isso tudo, ainda assim o filme realmente não decolaria, pois o gênero policial - bela página do cinema brasileiro - e mesmo a aventura estão aqui apresentados sem vigor e sem maiores elaborações. Ary Fernandes é um nome importante do cinema
popular, mas Até o último mercenário não é, nem de longe, um de seus melhores feitos.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Longas Brasileiros assistidos em 20016 (002)
Belas e corrompidas (1977)
Direção: Fauzi Mansur
Direção: Fauzi Mansur
Fauzi Mansur é um cineasta subestimado do cinema brasileiro.
Sua culpa no cartório? Ser um dos cineastas da Boca do Lixo, que, ainda que
seja grande, foi por isso renegado por grande parte da crítica da época. Afinal
a Boca só fazia pornochanchada de quinta, né? Santa ignorância. Foi
principalmente com o advento da internet, sobretudo com sua popularização, que
toda uma constelação desse período fértil do cinema paulista veio à luz em sua
grandeza – além do público, né, que lotava os cinemas e não estava nem aí para
os caretas de plantão. E Fauzi é um deles. Mesmo que tivesse dirigido apenas A
noite do desejo (1973) - que foi premiado -, já teria seu nome assegurado no cinema brasileiro. Uma
das facetas interessantes da carreira do cineasta é formada pelos seus filmes
de horror. Belas e corrompidas (1976), que alia o terror à farsa, é um desses
exemplares.
Em Belas e corrompidas Maria Isabel de Lizandra é uma mulher
solteira e misteriosa que vive em seu casarão com a fiel governanta corcunda, Stella
Maia, e o irmão boêmio, Luigi Picchi. Socialmente, Isabel - mesmo nome da atriz - é a presidente pudica
e respeitosa de uma associação beneficente, mas o que as donas de casa carolas integrantes
do grupo nem imaginam é o que acontece dentro daquelas paredes do casarão, para
onde a benemérita atrai suas vítimas. E aí dá-lhe machadinhas, punhais, estiletes,
morcegos, escorpião, guilhotina, e, claro, sangue para todo lado. Alguns homens
circulam em torno daquela que os jornais apontam como a Mulher Fera: o policial
apaixonado por ela, Fernando Reski; o cego amante de Tula, a corcunda, doido para apalpar a patroa, Carlos
Reichenbach; o auxiliar de açougueiro que suspira de amor e tesão, Carlos
Bucka; e por fim o irmão farrista que quer por que quer vender o casarão, Luigi
Picchi. O filme tem roteiro do bamba Marcos Rey e de Mansur, que na direção
aposta em cenas noturnas, muita chuva, escuros e cores quentes para compor a
atmosfera de horror sexual. Maria Isabel de Lizandra e Stella Maia estão bem em
sua cumplicidade macabra, em elenco que segura a peteca. É claro que a polícia
tinha todas as evidências para descobrir desde o início quem é a tal Mulher
Fera por causa das inúmeras “coincidências” que ligam as vítimas ao casarão.
Mas quem disse que Belas e corrompidas está interessado nas evidências do entrecho
policial? O filme só cai quando abandona
o horror para apostar na farsa em sua conclusão no julgamento inverossímil até mesmo para a condução do mostrado até então. Ainda assim é filme que se assiste com
interesse, tanto pelo desenrolar da trama quanto pelo destino de seus
personagens.
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