quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

longas brasileiros em 2011 (010)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2011 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)

010 - Flordelis - Basta uma Palavra para Mudar (2009), de Marco Antonio Ferraz e Anderson Corrêa */1

É moeda corrente a afirmação de que os pobres são muito mais solidários entre si. E se pensarmos na elite brasileira, muito desse dito pode ser verdade mesmo, pois ela é no geral insensível, indecente e assassina. Em um país como o Brasil, em que há um imenso povo que foi abandonado durante séculos, mais ainda assim teima em continuar, o que não faltam são histórias impressionantes. Como a de Flordelis, uma professora pública da favela do Jacarezinho, que acabou sendo mãe de 40 crianças - sendo 37 adotivos. A história dessa mulher evangélica realmente impressiona. Indignada com tantos meninos no tráfico ou ceifados por ele, primeiro ela passou a tentar dissuadi-los com suas mensagens de fé e de esperança. Depois, acabou adotando, de uma vez só, 37 crianças e adolescentes sobreviventes de uma chacina na Central do Brasil. É uma trajetória notável, pois teve que lutar para manter sua família, tendo que para isso enfrentar o Estado, além de estampar as páginas de jornais como sequestradora. É para tirar o chapéu total. Só que a melhor história do mundo pode não resultar em grande cinema, pois esse, antes de tudo, é linguagem com suas especificidades e códigos. Infelizmente, esse Flordelis - Basta Uma Palavra para Mudar, cuja realização foi para bancar a compra de uma casa para a família - já que vive de aluguel ainda hoje e sobrevive de doações - não acontece na tela. O filme foi construído a partir de narração e monólogos - raramente abre espaço para cenas gerais, como na impactante sequência protagonizada por Patrícia França. Flordelis pontua sua história, e um verdadeiro quem é quem de geração encarna alguns de seus filhos, e, de frente para a câmera, contam como a Mãe Flor - como eles a chamam - foi parar em suas vidas como única possibilidade de redenção. Letícia Sabatella, Reynaldo Gianecchini, Débora Secco, Cauâ Reymond, Marcelo Antony, Pedro Neschling, Fernanda Lima e Aline Moraes são alguns dos atores que encenam esses relatos. O primeiro impressiona, pois Isabel Fillardis está maravilhosa como uma das tantas mães que deixaram seus filhos com Flordelis. E Thiago Rodrigues também está muito bem. Mas no geral, esses pequenos monólogos em sequência acabam por cansar quem está do lado de cá, sobretudo quando os atores resolvem interpretar demais, como se pesar nas tintas fosse necessário para encarnar aqueles dramas - Rodrigo Hilbert é exemplo de um desses excessos. Flordelis - Basta uma Palavra para Mudar é cheio de boas intenções, e tem mesmo um daqueles personagens que Hollywwod adora pasteurizar em tons lacrimejantes. Só que a grandeza admirável ficou mesmo é do lado de fora da tela.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

longas brasileiros em 2011 (09)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2011 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)

009 - A Família do Barulho (1970), de Julio Bressane *****

Um dois filmes da lendária Belair - de Rogério Sganzerla e Julio Bressane -, que durante apenas quatro meses em 1970 realizou sete, A Família do Barulho é genial. Está lá, em cada fotograma, todo o imaginário do Cinema Marginal - muito deboche, escracho, inquietação e exasperação estética, política e existencial. De cara se vê Helena Ignez sentada de perna aberta em retrato vivo ao lado de Guará Rodrigues e Kleber Santos, numa espécie de visão atravessada e avacalhada da Dona Flor de Jorge Amado - o blockbuster de Bruno Barreto viriam anos depois. Daí, somos apresentados a uma família tradicional jogando cartas na sala, enquanto, ao som de folk "tira o leiiiite", na cozinha a empregada negra passa a roupa e um casal de meninos espivetados apronta todas: de serrote à mão, ela brinca, perversamente, de corta-lo ao meio; os dois fumam cigarros em tenríssima idade, e por aí vai - ou seja, muito antes da fase proibitiva do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas não é essa a família em foco, e sim a formada por Helena, Guará e Kleber. Enquanto ela roda a bolsinha e mantém a casa, eles ficam em casa bolando formas de manter a boa vida, pois como ela já disse, mais de uma vez, que como Presidente daquela pocilga tá cansada de financiar aquela moleza toda. É aí que Guará, que cafifando um plano com Santos, exalta a subida do petróleo e o aumento da bolsa no exterior, e proclama que a solução está mesmo é no oriente, portanto o melhor é contratarem uma odalisca. É a chave para a entrada de Maria Gladys, formando-se um quarteto da pesada - e é sempre fantástico ver juntas Ignez e Gladys, musas-maiores do movimento. A Família do Barulho é ponto altíssimo não só da Belair, como de todo o Cinema Marginal. Tem diálogos e tiradas engraçadíssimos - "essa é violenta", "você tá achando que sou fábrica de biscoito" -, e trilha sonora inspirada com direito à marchinha de Carmen Miranda, João Gilberto, e citações de clássicos como Mulher - de Custódio Mesquita e Sadi Cabral -, na voz irreverente de Helena, e nada mais nada menos de As Time Goes By, com Grande Otelo. Não bastasse tudo de ótimo em A Família do Barulho, tem ainda Grande Otelo hilário como a boneca Divina Dama. Transitando por todos os gêneros e ciclos do cinema brasileiro, Otelo sempre foi mesmo grande - e como em outras vezes, aqui ele arrasa, mesmo fazendo uma pequena, mas inesquecível, participação.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

sábado, 15 de janeiro de 2011

longas brasileiros em 2011 (008)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2011 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)

008 - Finis Hominis (1970/71), de José Mojica Marins ***

Um homem sai nu do mar e cruza uma cidade livremente, ainda que assuste quem encontra no caminho. Nessa trajetória faz uma velha entrevada (será mesmo?) na cadeira de todas andar, salva uma criança e sua mãe de um estupro, faz um bêbado achar que sua visão é mais um efeito do mé, e casais apaixonados sairem correndo em disparada. Até que se veste como um tuareg de vermelho dos pés à cabeça, sai novamente pelas ruas, onde salva um cataléptico - Lázaro - de ser enterrado vivo e uma esposa adúltera - Madalena - de ser morta. Além disso, é idolatrado por um bando de hippies - vendilhões do templo -, que abandona rapidinho o slogan de paz & amor para se engalfinhar por dinheiro. Todas essas façanhas o torna um espécie de Messias, com direito a seguidores e sermões na TV. Só que as coisas podem não ser o que parecem. Esse personagem chamado de Finis Hominis é o próprio José Mojica Marins, aqui em sentido oposto ao seu Zé do Caixão, já que semeia a paz e a bem-aventurança como armas para revelar a hiprocrisia social. Só que há em tudo isso uma fina ironia no talentoso roteiro do habitual parceiro Rubens F. Lucchetti, já que o Finis Hominis de Marins se assemelha ao próprio Cristo, que em sua peregrinação pelo asfalto encontra os personagens bíblicos de Roque Rodrigues - Lázaro, e Tereza Sodré - Madalena, os comerciantes do templo - hippies -, além de proferir o famoso Sermão da Montanha, aqui assistido pela TV. Por essa chave, tanto o Messias como esses outros personagenss não poderiam ser nada mais nada menos que pessoas comuns dotados de algum distúrbio psiquico - Finis; médico - Lázaro; sexual - Madalena? E a Sagrada Escritura não poderia ser nada mais nada menos que poderoso meio de comunicação como são hoje os veículos de imprensa e entretenimento, sobretudo a televisão? Ousada visão dos mitos bíblicos - que como em Cristo, revela a hipocrisia de seu tempo e súditos -, Finis Hominis se vale de fotografia quente de Giorgio Attíli e Edward Frend para ambientar sequências despudoradas, dentre algumas a melhor delas: a ninfomaníaca Andreia Bryan sendo sodomizada - a única forma que consegue chorar - à beira do caixão de Lázaro, a fim de que possa enganar a platéia do velório com seu falso pranto. No elenco, participação especial do cineasta Carlos Reichenbach como um médico que cuida tanto do coração quanto da disfunção erétil de Lázaro.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (165)


Sissy Spacek.





Nu!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

longas brasileiros em 2011 (007)


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2011 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)

007 - O Grande Palhaço (1980), de William Cobbett **1/2

A associação entre palhaço e lágrimas é clássica, pois a metáfora "chora quem nos faz rir" dá a medida da ambiguidade trágica do personagem. Essa máxima parece ter seduzido o cineasta do Rio Grande do Norte, William Cobbett, que realizou esse O Grande Palhaço, seu último longa - assinou também a produção e o co-argumento, com Luiz Olimecha, e o co-roteiro, com Mouse Casado. Durante os seus primeiros quinze minutos, o filme mais parece um documentário, pois Cobbett abre espaço para diferentes números circenses e faz deles seu foco - malabarismo, trapezismo, globo da morte, corda, palhaço, triciclos. Só vemos que não é um doc de fato pela presença dos atores Luiz Armando Queiróz, Angelina Muniz e Eduardo Tornaghi protagonizando alguns desses números. Com essa construção, é como se o filme quisesse nos mostrar que ainda que brilhem no picadeiro, cada um daqueles artistas que trabalham continuamente com luzes, cores e magias encerra pequenos ou grandes dramas em suas vidas - e dai o diretor escolheu um deles para contar sua história. Queiróz é o palhaço Carrapicho, a estrela de um grande circo, onde também trabalham Angelina Muniz, sua mulher trapezista, e seu filho. Angelina prepara seu número mais difícil, o salto triplo, mas a façanha acaba em tragédia. A partir daí, Queiróz não consegue mais fazer ninguém rir, abandona a ribalta e começa uma trajetória de solidão e decadência. Premiado no Festival de Tashkent, da então União Soviética, O Grande Palhaço é filme interessante, que ainda que resulte irregular, tem lá seus momentos. No elenco, com boas presenças de Renato Coutinho e Maria Pompeu como os donos do circo, ela também como a cartomante, destaca-se Eduardo Tornaghi como o artista rebelde, mulherengo e um tanto cafajeste, que faz de sua vida nos bastidores quase que uma extensão da corda bamba onde faz suas apresentações - pena que seu personagem não seja mais explorado pelo roteiro. Já Fernando Reski e Tony Ferreira são os apresentadores da companhia e Maria Zilda Bethlem e Betina Viany fazem pequenas pontas como tietes do circo que caem nas mãos de Tornaghi. O Grande Palhaço é um dos filmes prediletos da cineasta Adélia Sampaio, cunhada de Cobbett que trabalhou em todos os seus filmes em diferentes funções técnicas e que aqui fez a direção de produção.

Cotações:
+ ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

sobre a dor


Tem quatro dias que não consigo postar nada aqui, pois perdi um amigo barbaramente assassinado.

Ele foi passear lá em Recife, onde estava desde o dia 24 de dezembro, e morreu um dia antes de voltar para BH.

O tempo inteiro a gente lê essas manchetes de sangue no jornal e acha que não tem nada a ver com isso.

Pois, insensivelmente, achamos que nunca vai acontecer no mundinho privado da gente.

Mas aí o inacreditável acontece e a gente fica assim:
- chocado, paralisado, impotente.

Não consigo parar de pensar no quanto ele sofreu, fico com o pensamento fixo nos seus momentos finais, e o choque não cessa.

Muito menos a dor.

Que horror, meu Deus, que horror!

Nunca me esquecerei de você, Juninho, nunca.