quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 008



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)


008 – A Noite dos Bacanais (1981), de Fauzi Mansur



Atualmente, as discussões sobre o projeto Genoma e a utilização das células-tronco marcam presença não apenas em publicações científicas, mas em qualquer noticiário do dia a dia e mesa de bar. Mas lá nos anos 1980, o quente mesmo era discutir sobre o Bebê de Proveta. Afinal, foi ali no finalzinho da década anterior que o primeiro veio ao mundo. Pois você acham que o tema intimidou a Boca do Lixo? Claro que não! Já em 1981, chegava às telas este A Noite dos Bacanais, de Fauzi Mansur. Ênio Gonçalves e Zaira Bueno forma um casal rico que depois de três anos de casamento já saiu da fase do mel para a do feijão com arroz. Insatisfeita com a vida sexual morna, ela propõe a ele que os dois passem a frequentar o swing, prática adotada na roda de seus amigos. Reticente e a contragosto, ele acaba sendo jogado no caldeirão. Já ela, esbalda-se cada vez mais em surubas quentíssimas, com direito à fantasias com mulheres, travestis e curras. Quando ele fala sobre o desejo de ter filhos, ela descarta a ideia, pois não quer ficar disforme e nem se sentir aprisionada. É aí então que ele resolve ter um filho de proveta, prática revolucionária da época, mas acaba se envolvendo também com a mulher que vai desenvolver o rebento, interpretada por Solange Couto. Se a Boca é conhecida por usar títulos apelativos, esse aqui está muito aquém do que se vê na tela. Afinal, não é apenas uma noite, mas noites e dias de bacanais cada vez mais apimentados, com a musa Zaira Bueno se expondo sem nenhum pudor. A Noite dos Bacanais é exemplo perfeito para distinguir o que era pornochanchada e o que não era na produção da Boca do Lixo. Fauzi Mansur até que visitou o gênero, como em O Inseto do Amor, mas restringir seu cinema ao rótulo é de uma tacanhice absurda. De ponta a ponta está sua elegância habitual na direção e na construção de climas, e sem lugar para uso gratuito de estereótipos e preconceitos tão caros ao gênero das pornochanchadas. Aqui, o prazer sexual das mulheres tem vez e elas não são apenas objetos dos homens, são donas de suas vontades. Ou seja, o oposto no gênero, já que a postura libertária vem delas e não deles. E Ênio Gonçalves encarna com brilho e talento esse personagem que permite, sem embates recriminatórios e possessivos, esse novo lugar para homens e mulheres - o que lhe reserva também um papel de modernidade anos-luz á frente dos machistas de plantão. No elenco, além das musas Fátima Maluf, Rosa Maria Pestana e Aryadne de Lima, há de se destacar a presença de Solange Couto, linda e magérrima, muito antes de sua farta e popular Dona Jura imortalizada em novela da televisão.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 007



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)


007 – Curral de Mulheres (1982), de Osvaldo Oliveira


Muito já se falou sobre o expediente usado pela Boca do Lixo com os títulos apelativos para suas produções, e que, na maior parte das vezes, nada tinha a ver com seus conteúdos. Bom, esse não é, definitivamente, o caso deste Curral de Mulheres, dirigido por Osvaldo Oliveira. Afinal, há mesmo o tal curral e mulheres tem às pencas: Sandra Graffi, Lígia de Paula, Elys Cardoso, Márcia Fraga, Shirley Benny, Kátia Spencer e Vanessa Alves são algumas delas - só para ficar nas musas mais destacadas da Boca. O tal curral fica em uma fazenda perdida no meio do mato, para onde os traficantes de mulheres interpretados por Maurício do Valle e Elizabeth Hartmann atraem moças com promessas de grana fácil, mas sem revelar o real destino reservado para elas - serem vendidas por muita grana. Se a contragosto a maioria acata sua sina, o mesmo não acontece, sobretudo, com a personagem de Sandra Graffi, que fará de tudo para se libertar. Curral de Mulheres é o tipo de pornochanchada em que toda a ação da trama está desenvolvida para justificar a nudez de suas atrizes e seus roças simulados com um bando de marmanjos tarados. Elizabeth Hartmann, sempre grande atriz de elegância habitual e forte presença, até tenta dar alguma dignidade para sua Helena, mas é mesmo uma batalha inglória com o que tem à disposição no roteiro mal ajambrado de Oliveira e Alfredo Palácios. Roteiro que, aliás, se divide em quase dois filmes, pois lá pelas tantas o inferno das meninas passa a ser não mais os traficantes e sim os perigos da selva e dos garimpos. Oliveira e Palácios colocam ainda em cena um pastor gay dono de garimpo, uma bichinha tralalá, cenas de sexo sem mais nem pra quê com personagens circundantes, e por aí afora. Enfim, um enxerto tão indigesto como o sentimento de paz expresso por Graffi em cena de gran finale, que poderia ter função irônica – já que aquele casal formado pode ser mais um nos moldes dos traficantes -, mas cujo resultado só faz incômodo pela má carpintaria.

domingo, 8 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 006


Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)



006 – O Casal (1975), de Daniel Filho


Daniel Filho é hoje braço poderoso da Globo no cinema, para muitos sinônimo da Globo Filmes. Já durante as décadas de 1970 e 80, foi o todo poderoso da TV Globo, responsável pela área da teledramaturgia formada por novelas, minisséries, especiais, séries, seriados e também por alguns programas musicais. Este O Casal é dessa fase primeira, época em que na TV dirigia o megassucesso Pecado Capital (1975), de Janete Clair. Se hoje, Daniel Filho é acusado, nem sempre justamente, de imprimir uma estética televisiva no cinema via Globo filmes, o mesmo jamais poderia ser dito sobre O Casal. Há cinema ali. A história é uma adaptação, assinada por Oduvaldo Vianna Filho e Daniel, da peça do primeiro, Enquanto a Cegonha não vem. José Wilker e Sônia Braga formam um casal que vivencia as dores e delícias da espera de um filho. Ele é um professor de história às portas do teste de mestrado que tem que mudar sua rotina com a chegada do filho, a fim de faturar mais grana para dar conta do recado. E, mais que isso, como ele próprio diz, ter que virar “hominho”. Já ela é uma romântica, que ainda que perceba que as coisas não estão fáceis, não abre mão de alguns desejos burgueses. Daniel Filho dirige bem essa terna história, que é cara dos textos sobre a classe média escritos por Vianninha. Não é um grande filme, mas tem força principalmente na carga emocional impressa pelos seus atores. Quando Jack Nicholson resolve parar de ligar o piloto automático, deixar de lançar mão de suas caretas e atuar de verdade como nos bons tempos, ele mostra do que é capaz – como fez, por exemplo, em Melhor é Impossível (1997), de James L. Brooks. O mesmo acontece com José Wilker, que tem o primeiro como ídolo. Há muito, Wilker parece usar o mesmo piloto automático e o mesmo repertório de caretas. Mas quando quer ser o grande ator que é não sobra para ninguém, como fez em O Maior Amor do Mundo (2006), de Carlos Diegues. O Casal é da fase em que sua maestria era constante, tanto na TV – Gabriela (1975), de Walter George Durst, quanto no cinema – Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto. E ele arrasa como o inseguro Giacometti. Já sobre Sônia Braga virou um clichê descrevê-la como uma força da natureza. Mas é quase mesmo impossível não nos vir essa associação vendo-a em cena, esbanjando carisma e emoção à flor da pele. Há que se destacar também o elenco coadjuvante, sobretudo as presenças de Antonio Pedro e Betty Faria - linda -, na época casada com Daniel.


sábado, 7 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 005



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)



005 – As Panteras Negras do Sexo (1983), de Ubiratan Gonçalves



O cinema americano dos anos 1970 não consagrou apenas cineastas mundialmente conhecidos como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Steven Spielberg. Viu também suas telas sacudidas por movimentos e gêneros que influenciariam outras cinematografias. Um exemplo? O chamado Blaxploitation, gênero que colocou os negros nas telas em filmes de baixo orçamento, atuando e dirigindo, em tramas policiais eletrizantes. O Blaxploitation veio bater a porta da produção brazuca, encontrando na Boca do Lixo geografia perfeita, já que ela sempre foi espaço efervescente a gerar filmes dos mais diferentes gêneros e subgêneros, ainda que muitos quisessem condicioná-la apenas às pornochanchadas. Em 1983, era lançado no Cine Olido, em São Paulo, As Panteras Negras do Sexo, produzido e dirigido por Ubiratan Gonçalves, com argumento e roteiro dele e de Ody Fraga. O filme é fita nos moldes dos Blaxploitation - mas com molho brasileiro, como a ode às mulatas - protagonizados por negros e aliando sexo e trama policial, junção que a Boca sempre fez, mas quase nunca com esse tipo de elenco a frente. A trama coloca em cena uma família negra endinheirada conduzida com mão de ferro pelo patriarca interpretado pelo saudoso Henricão, cujos valores de conduta moral parecem um tanto antiquados aos olhos de seus numerosos filhos. Logo no começo, uma jovem é assassinada e jogada no mar por um playboy, e pouco depois vamos saber que ela é a filha caçula de Henricão, que como seus filhos, sabe que a menina desapareceu, mas desconhece seu trágico destino. É aí que sem denunciarem para a polícia, eles vão se unir para tentar descobrir o que aconteceu e quem está por trás disso tudo. Filme injustamente invisível na filmografia brasileira, As Panteras Negras do Sexo desperta o interesse o tempo todo e ficamos realmente cúmplices de sua história. Ubiratan Gonçalves conduz bem sua trama e o mestre Pio Zamuner consegue imprimir cores quentes em sua fotografia sintonizada com seu foco. O roteiro claudica um pouco em cenas com um certo descompasso, mas segura a onda durante 60 minutos. Só que nos últimos 20 minutos a coisa desanda, e a gente fica cafifando sobre o que pode ter acontecido para o filme ter um desfecho tão apressado e nas coxas: faltou dinheiro? Deu a louca nos roteiristas? É realmente uma pena, pois desperdício de um potencial que se bem finalizado elevaria o filme em altos decibéis, colocando este As Panteras Negras do Sexo em outro patamar - inclusive em nossa memória.

Em tempo: como assinalou o amigo Sergio Andrade nos comentários, tinha faltado registrar a presença do então jogador Serginho Chulapa no texto. No filme, ele também faz um jogador, que é irmão da moça assassinada. É o protagonista, mais pela fama que pela importância de seu personagem en cena, já que o que vale ali é conjunto.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 004



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)


004 – Bacanais na Ilha das Ninfetas (1982), de Osvaldo Oliveira



Bacanais na Ilha das Ninfetas é filme da última fase de Osvaldo Oliveira, grande fotógrafo e câmera, e um importante cineasta da Boca com vinte filmes no curriculo – dentre eles, os cultuados Histórias que nossas Babás não contavam (1979) e A Prisão (1981). Carcaça, como era chamado, morreria pouco tempo depois, em 1990, dirigindo ainda A Fêmea da Praia (1983). Neste Bacanais na Ilha das Ninfetas o que se vê é uma daquelas farsas eróticas produzidas em série pela Boca, com muito peitinho e periquitas de fora e humor pastelão. A precariedade de recursos nas produções era revertida com criatividade, mas aqui não há muita salvação. O roteiro é uma grande presepada, importando mais as cenas com as moças despidas e suas transas em bando com o mocinho alucinado com suas pererecas em formato de coração colorido - os tais bacanais do título. Ele é o cantor romântico Dick Boy - Márcio Prado, e elas são Zilda Mayo, a parceira Marisa, e as ninfetas Maristela Moreno, Jussara Calmon, Mara Carmen e Cristina D´Avila. Dick e suas meninas encontram um tesouro numa ilha, mas logo ele e Marisa botam a mão na bufunfa e pegam rota de fuga. No encalço deles vão as meninas e também três marginais que querem a grana - a perseguição envolve carros, bicicletas, barcos, caminhadas e correrias. Bacanais na Ilha das Ninfetas tem cenas inacreditáveis, como as meninas fazendo escovinha na genitália e a aparição de um homem das cavernas, extenuado sexualmente pelas ninfetas - há ainda o dublador Pablo, trepando no mato com sua famosa cara pintada. O grande achado do filme é mesmo a presença de Zilda Mayo, muito boa em comédia com sua voz inconfundível, fazendo aqui uma mulher alucinada por banana. Se em A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla, temos o inesquecível apelo em forma de bordão “paga uma cuba, bem”, aqui o que há é “tô com vontade de comer banana”, dito safadamente por Zilda, e o melhor é que o desejo insaciável é pela fruta mesmo. Maristela Moreno tem seus momentos e Jussara Calmon também diverte com sua Tânia Tiroteio, mas é Zilda que rouba a cena. Mesmo porque parece estar ali mesmo é para se divertir, não levando a sério sua personagem um minuto sequer. Ao contrário do que promete o cartaz, não há cenas de sexo explícito no filme, não pelo menos nesta cópia assistida.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 003



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.


(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(em 2011 – 72 filmes)


003 – Sonhos de Menina Moça (1988), de Tereza Trautman



Uma olhada rápida no elenco deste Sonhos de Menina Moça faz a gente logo pensar que seja um filme de Walter Hugo Khouri – ainda que fosse improvável que o mestre usasse um título assim. É porque o desfile de deusas na tela é impressionante. Vejam só: Tonia Carrero, Louise Cardoso, Marieta Severo, Selma Egrei, Monique Lafond, Xuxa Lopes, Zezé Motta, Íris Bruzzi, Norma Blumm, Gabriela Alves, Flávia Monteiro, Angela Figueiredo, Dóris Giesse. Mas não, é filme da cineasta paulista radicada no Rio de Janeiro desde os anos 1970, Tereza Trautman. Aliás, foi em terras cariocas que a cineasta dirigiu um marco feminino dos anos 70: Os Homens que Eu Tive – idealizado para Leila Diniz, mas protagonizado por Darlene Glória depois da trágica morte de Leila. Não só pela temática, que falava dos anseios da mulher moderna, mas por também ser longa pioneiro de uma diretora naquele momento, já que até os anos 60 apenas seis mulheres tinham chegado a conduzir um filme no formato. Portanto, Tereza Trautman tem mesmo o que dizer, e, melhor, sabe como fazê-lo ao se debruçar sobre esse universo - é ela que também assina o argumento e o roteiro. Aqui, ela mira sua lente para uma família chefiada pela matriarca belamente interpretada por Tonia, que se reúne para uma grande despedida, já que aquele será o último dia de permanência de todos na mansão, que fora vendida. Abre-se palco então para o despertar de memórias, rancores, frustações, amores mal resolvidos, traição, drogas e casamentos assim assim. Algumas palavras, verbos e dizeres se tornaram verdadeiros clichês esvaziados pelo uso constante e sem peias, como "comunidade", "instigar" e “no tempo da delicadeza”. Mas ainda que seja armadilha anunciada, é impossível não pensar nesse tempo delicado que a cineasta construiu para soltar suas feras na arena. Todos os sentimentos, fortes ou leves, estão lá, mas há uma ternura impregnada em sua lente que nos faz olhar para aquilo tudo como se estivéssemos mesmo folheando álbuns de retratos ou assistindo filmes Super-8 caseiros, como os personagens fazem. Só que jamais sem exalar mofo ou tempo estagnado. Os personagens de Trautman pulsam, e ainda que seus desejos e temores sejam, afinal, em grande parte, sentimentos burgueses, nunca deixa de ser interessante olhar para aquela paleta de cores que ela desenhou e descortina à nossa frente.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 002



Filmes brasileiros assistidos e revistos em 2012 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)
(em 2010 - 289 filmes)
(2m 2011 – 72 filmes)



002 – Passaporte para o Inferno (1976), de J. Marreco

Não é só o cinema americano que gosta de filmes de perseguição. Em sua história, vez ou outra, o cinema brasileiro também dá as caras nesse subgênero. Exemplos: os bacanas Arara Vermelha (1957), de Tom Payne, e Fêmeas em Fuga (1984), de Michele Massimo Tarantini. Só que em Passaporte para o Inferno, o cineasta J. Marreco se equivocou terrivelmente. O problema maior está no roteiro, também assinado por ele. Vejam só: quatro bandidos perigosos escapolem da prisão, e o presídio, ao invés de acionar a polícia, chama um caçador de fugitivos para capturar os tais. Em meio a isso, uma patricinha briga com o pai dominador, termina com o noivo babão e parte em teco teco para integrar equipe de faculdade no melhor estilo Projeto Rondon – um convite tentador à aventura para quem foi estudante nos anos 1970 e 80. Só que lá pelas tantas o avião pifa, o piloto, que tem que fazer pouso forçado, morre, e resta ela, que fica ferida. Agora imaginem onde ela caiu? Claro, justamente no caminho dos bandidões. Pronto, está aí a trama do filme. Bom, mesmo com esse rame rame, daria para fazer algo bacana se o roteiro de Marreco não enfrentasse a história com bocejos sem fim. O caçador poderia ser o cão, pois é personificado por Jonas Melo, um ator que tem perfil para ser um temido capitão do mato. Só que o que ele faz o filme inteiro é seguir a trilha dos moços sem erro, como se eles, feito Joãozinho e Maria, deixassem bagos de milho sinalizando o caminho; chegar aos locais sempre depois do bando; e ficar ligando para a central que o contratou para dar notícia de tudo o que acontece. Ou seja, ação quase zero. Já os bandidões – Cazarré, Gilberto Sávio, Darcy Silva e Walter Prado - personificam os clichês de sempre, ainda que Marreco queira lhes dar uma certa identidade: o líder é chamado de Profeta, pois vive com a bíblia debaixo do braço, bastando ouvir o nome santo de Deus em vão para disparar sua garrucha; um é o estuprador sacana; outro faz cara de bom moço e, quando baleado, tornar-se estorvo para o bando; e o último um aloprado que ri o tempo todo de tudo e de todos. Um detalhe perturbador: eles nunca parecem sentir fome ou sede, pois são capazes de jogar as latas de leite fora sem sequer conferir se tem líquido lá dentro; chegam a um rio depois de longa caminhada, mas não se atiram na água para beber ou se refrescar. Já a mocinha é a musa da Boca, Fernanda de Jesus, que sem mais pra quê é capaz até de chorar com a morte deles. Enfim, tudo muito frouxo nesse filme do cineasta que vinha do comenatado A Carne (1975) e logo depois faria o bacana Emmanuelle Tropical (1977), respectivamente com as deusas Selma Egrei e Monique Lafond.