quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

longas brasileiros em 2010 (94)


Filmes brasileiros assistidos ou revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

094 - Quero Ser Feliz (1986), de Sérgio Daniel Lerrer ***

Obs.: não consegui imagem do filme - na foto, Julio Remy.

Nas terras gaúchas do pioneiro Eduardo Abelim, um grupo de cineastas fez barulho nos anos 1970 com filmes em Super-8 que chamaram atenção da crítica, e confirmaram o talento nas produções em 35mm na década seguinte - como Nelson Nadotti, Giba Assis Brasil, Carlos Gerbase, Werner Schunemann e Sérgio Amon. E entre eles estava também Sérgio Daniel Lerrer, produtor de filmes reconhecidos nacionalmente - Verdes Anos (1984), de Gerbase e Giba, e Aqueles Dois (1985), de Amon - e que debutou em longas nesse Quero Ser Feliz, como diretor, co-produtor e roteirista. O filme acompanha as andanças de três jovens e as angústias, azarações e indefinições da idade - exército, namoradas, sexo, paixão, conflito familiar, empregos, profissão. Julio Reny é projecionista de cinema, Fernando Severino pula de emprego em emprego, e Marcos Breda dorme até o meio-dia. Já nas primeiras cenas, eles vivenciam o terror de véspera de apresentação no serviço militar, enquando esquadrinham a pista da boate à procura de possíveis pegações. Em um primeiro momento um bocejo se insinua e pensamos cá com os botões: mais um tipico filme de jovens com preocupações burguesas primárias? Essa sensação de possível impaciência teima em se reforçar com a trilha sonora atrapalhada, pois de uma vez só ouvimos uma enxurrada de músicas dos Beatles, todas picotadas - e voltamos a pensar com os mesmos botões: por que tanto Beatles em plenos anos 80? Se daí para frente a trilha sonora continua esquizofrênica, com mais Beatles, Simon e Garfunkel, BRock e outros mais, que faz ranço não pela beleza das canções, mas pela interrupção em todas elas, esses personagens e seus conflitos burgueses vão nos seduzindo em crescente. Questões como as descritas estão em muitos filmes que têm jovens recém-saídos da adolescência. Mas há em Quero Ser Feliz um certo tom de tristeza e desamparo não na boca de cena, mas por trás de tudo, que vai nos conquistando sorrateiramente. Ponto para Sérgio Daniel Lerrer, já que assina o roteiro e a direção, e também para o elenco quase todo desconhecido do grande público, a não ser Marcos Breda e Mayara Magri. Aliás, os dois, Breda e Magri, formam uma possibilidade de casal que retrata muito bem as sutilezas do roteiro e da direção de Lerrer, e toda a cena envolvendo um copo d´água diz muito sobre isso - como também as cenas de Julio Reny (foto), que além de ator é muito bom cantor, com seu violão e voz marcante. O cineasta só voltaria a dirigir um longa em 2000 - De Cara Limpa, mas esse Quero Ser Feliz já é, por si só, belo registro de acerto e de sensibilidade. Vale ressaltar ainda a presença na ficha técnica de outro gaúcho talentoso como um dos integrantes da produção gráfica, Adão Iturrusgarai, criador da deliciosa Aline dos quadrinhos e da TV, e dos anárquicos cowboys gays Rock & Hudson.

Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

terça-feira, 20 de abril de 2010

longas brasileiros em 2010 (93)


Filmes brasileiros assistidos ou revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

093 - Treze Cadeiras (1957),de Francisco (Franz) Eichhorn ***

Esse Treze Cadeiras reúne o astro maior da Atlântida, Oscarito, com outros notáveis e geniais comediantes das chanchadas, Zé Trindade, Renata Fronzi e Zezé Macedo. Só que o filme difere bastante das produções habituais do estúdio, pois é um hibrido de comédia quase musical e melodrama. Oscarito é um barbeiro do interior que vem para a cidade grande receber a herança que a tia deixou. Já no caminho desperta a atenção e o interesse de Renata Fronzi, uma vedete de boate, que fica de olho na butique do novo rico. Mas Oscarito fica desapontado, pois a tia lhe deixou apenas treze cadeiras, e sem saber que uma delas guarda uma fortuna, vende todas para Zé Trindade, que por sua vez as revende para um monte de gente. Daí, ele e Fronzi passam o filme inteiro atrás das cadeiras espalhadas pela cidade. Não há quase números musicais nessa produção, a não ser um de Renata Fronzi e uma música de Zé Trindade, que o próprio escuta no rádio e sapeca diz para a mulher brava: deixa o Zé Trindade cantar, Ananásia! Oscarito é talentoso sempre, mas aqui Zé Trindade quase rouba a cena, sobretudo nos seus embates com a esposa megera, a ótima Rosa Sandrini - ouvi-lo exclamar Ananásia! já é garantia de diversão. Renata Fronzi também está ótima, e aqui tem papel sob medida para mostrar seu talento como comediante e atriz dramática. Sua personagem, a interesseira Yvone, é capaz de vilania com o Bonifácio Boaventura de Oscarito, e, ao mesmo tempo, demonstrar doçura, compondo uma vilã cheia de sutilezas e complexidade. Oscarito, mais uma vez, tem falas geniais, não necessariamente pelo brilhantismo delas, mas por seu jeito todo particular em dizê-las. Quando o filme vira melodrama e lhe exige mais o ator que o comediante, ele fica aquém de sua genialidade, mas não faz feito de jeito nenhum. O cineasta Fraz Eichhorn é um alemão que assinava Francisco Eichhorn em seus filmes rodados aqui. Esse Treze Cadeiras, que tem roteiro de José Cajado Filho, é baseado em romance de Ilia Lif e E. Petrov. Realizado há mais de meio século, Treze Cadeiras é um exemplo de como as produções da Atlântida conseguiam um diálogo com o público, ponte que não se desfez mesmo passadas tantas décadas.

Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

segunda-feira, 19 de abril de 2010

longas brasileiros em 2010 (92)


Filmes brasileiros assistidos ou revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

092 - Rita Cadillac, A Lady do Povo (2007), de Toni Venturi ****

Quem tem mais de 40 anos e cresceu assistindo a TV Tupi sabe que a chacrete maior foi India Potira, com suspiros da platéia também para outras como Yvone, Walderez, Lucinha Apache, Verinha do Flamengo e Angélica. Todas elas batiam ponto nos programas do Chacrinha, a Discoteca e a Buzina. Já quando o Velho Guerreiro voltou para a Globo e juntou os dois no Cassino do Chacrinha, aí Rita Cadillac realmente roubou a cena. É a trajetória desse furacão que o cineasta Tony Venturi refaz nesse bacana Rita Cadillac, A Lady do Povo. Documentário é assim, ou vale pelo personagem, como o Vinicius (2005), de Miguel Faria Jr, ou quando independente do carisma do personagem o que se percebe é grande cinema, como o Santiago (2006), de João Moreira Salles. E tem casos que mesmo um bom personagem pode não funcionar e resultar em filmes assim assim, como o Paulo Vanzolini de Um Homem de Moral (2009), de Ricardo Dias - esse caso assusta ainda mais, pois o mesmo cineasta já tinha feito o fascinante No Rio das Amazonas (1995), sobre o Vanzolini zoólogo, ao contrário deste que é sobre o Vanzolini compositor. Em Rita Cadillac, A Lady do Povo, Toni Venturi tem uma personagem e tanto, mas ainda assim fica nítido também o dedo talentoso do cineasta para que a ex-chacrete, dançarina e atriz seja apresentada de forma tão digna na tela. O filme começa aparentemente com cenas clichês, com Rita desfilando em um cadillac vermelho e depois preparando o almoço de forma completamente desglamourizada. Com o andar da carruagem, vê-se que é exatamente esses dois registros, o da sexy simbol e o da dona de casa, que interessam ao cineasta. Rita se entrega à lente de Venturi e fala de tudo - ou para lembrarmos do livro de memórias de Danusa Leão, fala de Quase Tudo. Fala dos envolvimentos amorosos, dos pais, da carreira artística, dos problemas com o pai do seu filho, dos tempos da viração, de alguns filmes que fez, da passagem pelo cinema pornô, e muito mais. E é a carreira no cinema que rende passagens belíssimas no documentário, como a atuação dela em Asa Branca, Um Sonho Brasileiro (1981), notável filme de Djalma Limongi Batista, em que ela está mais pantera do que nunca. Aliás, é Djalma que a chama de Lady do Povo, e no filme conta como ficou fascinado por ela. Outro momento lindo no cinema é a cena do show para os presidiários em Carandiru (2003), com direito a depoimento inspirado de Hector Babenco, que chama atenção para a ingenuidade presente na imagem de furacão de Rita. Como se sabe também, Rita Cadillac foi manchete em tudo que foi lugar quando resolveu protagonizar filmes pornôs na série Brasileirinhas. E é impressionante como mesmo depois dessa passagem, que poderia destruir uma carreira pelo preconceito hipócrita dos caretas de plantão, ela saiu ilesa e continuou respeitada como sexy simbol popular e das maiores que este país já produziu nesse universo. Reinado que Rita Cadillac mantém e com toda justiça em quatro décadas no imaginário popular, e que esse documentário ajuda a eternizar nas telas.

Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie deusas (117)


Stéphane Audran.




Nu!!!

domingo, 18 de abril de 2010

longas brasileiros em 2010 (91)


Filmes brasileiros assistidos ou revistos em 2010 no cinema, no DVD e na televisão.
(em 2009 - 315 filmes)

091 - D´Gajão Mata Para Vingar (1971), de José Mojica Marins **1/2

Quem acompanha a carreira de José Mojica Marins sabe, mas ao contrário do que pensa o grande público, Mojica não dirigiu apenas filmes de terror/horror, como também comédias eróticas, filmes de sexo explícito, e faroestes como esse D´Gajão Mata Para Vingar. Aqui a trama envolve o extermínio de um grupo de ciganos por um fazendeiro que é levado a pensar que sua filha foi morta por um deles, quando na verdade ela morreu quando o capataz da fazenda tentou estrupá-la. Da matança só sobram D´Gajão e sua mulher Nadja, que é feita prisioneira pelo fazendeiro. Ele então vai em busca da bela e com desejo sangrento de vingar seu povo. Como nos faroestes de John Ford, aqui também há duelos no saloon, bandido sendo baleado no alto dos sobrados e montanhas de pedra, onde mocinho e bandidos travam tiroteio com muito mais balas espocando antes das armas serem reabastecidas. Se por lá muitas vezes são homens duros e solitários, aqui são saltitantes ciganos às voltas com a marca a ferro de serem apontados eternamente como ladrões - quem foi criança no interior em priscas eras lembra-se que um dos medos maiores era ser roubado para virar sabão. E aqui, nada de Dara e de Cigano Igor, quem manda mesmo no pedaço é Walter Portella, talentoso ator da Boca do Lixo em um de seus primeiros trabalhos, e a bela Ana Nielsen. Daí, sai o Django de Franco Nero e de Sergio Corbucci e entra do D´Gajão de Portella e Marins, com todo o nosso knowhow particularíssimo. O filme é um exemplar da diversidade de produção da Boca do Lixo, também por sua vez confundida apenas como ninho de pornochanchada, quando na verdade foi templo generoso do cinema popular e suas vertentes, inclusive as deliciosas pornochanchadas. D´Gajão Mata Para Vingar é filme que se assiste com interesse, sobretudo por suscitar um certo ar nostálgico de um tipo de cinema que não há mais. Mojica é talentoso sempre, ainda que seja no terror/horror que realmente nade de braçada. Muitas vezes o filme fica foruxo, como em cenas longas de tiroteio e de perseguição. Filmado no Paraná, D´Gajão tem nomes notáveis da Boca na ficha técnica: Manuel Augusto de Cervantes na produção, Edward Freund na direção de fotografia e na câmera, Fauzi Mansur na montagem.

Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

serie grandes comediantes (25)


Renato Aragão.




Deuses do riso.