
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
longas brasileiros em 2010 (108)

(em 2009 - 315 filmes)
108 - Máscara da Traição (1969), de Roberto Pires ****
O cineasta Roberto Pires deveria ser mais festejado. Pioneiro que colocou o cinema baiano de longas no mapa nacional com Redenção (1955/59), Pires é mais que cineasta e mestre de toda uma geração, é também inventor de lente e de outras técnicas de filmagem. Diretor de A Grande Feira (1961), um clássico fascinante, construiu sua carreira de cineasta, produtor, roteirista, montador, diretor de fotografia e ator que vai até a década de 90 - faleceu em 2001. Com produções em solo baiano e carioca, já no Rio de Janeiro realizou esse notável Máscara da Traição, em que assina também o roteiro, reunindo o casal mais célebre das novelas de TV e também com atuações individuais importantes no cinema, Tarcísio Meira e Glória Menezes. O casal vinha de sucessos nas novelas 2-5499 (1963), de Dulce Santucci, a primeira a ser exibida diariamente; A Deusa Vencida (1965), superprodução escrita por Ivani Ribeiro; e Almas de Pedra (1966), também de Ivani Ribeiro - depois seriam reunidos nas telas em filmes como Independência ou Morte (1972), de Carlos Coimbra. Máscara da Traição tem uma ficha técnica de primeira: Leopoldo Serran no argumento - em co-autoria com Pires; Afonso Beato e Pompilho Tostes na fotografia; Régis Monteiro na cenografia; Francis Hime na música; Luiz Carlos Lacerda na assistência de direção; e mais Claudio Marzo, Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Oswaldo Loureiro e Mário Brasini no elenco. Na trama, Claúdio Marzo é um contador que trabalha no setor financeiro do maracanã e que é diariamente humilhado pelo chefe Tarcísio Meira. Certo dia conhece Glória Menezes, a esposa do chefe, de quem se torna amante, e juntos armam plano para o roubo de renda milionária do estádio, deixando a culpa para o désposta. A partir daí um intrincado jogo de aparências conduz a história e o espectador. Com perfeito domínio de cena, o filme reafirma o gigantesco talento do cineasta. O acerto está tanto no roteiro e na direção, como também no elenco perfeito e, parece, escolhido a dedo. Tarcísio, Glória e Marzo estão simplesmente sensacionais como o triângulo amoroso protagonista e de perigosas consequências. Afinal, quantos paus mandados não sonharam um dia em mandar o chefe para aquele lugar, vingar-se faturando a esposa ou o marido dele, botar a mão em uma bolada e ainda incriminar o sujeito? Cláudio Marzo encarna com maestria esse funcionário anônimo que nas horas de folga visita galerias, detesta arte moderna e faz seus desenhinhos; e que na hora da labuta bate boca com o chefe por se sentir ultrajado, o que aparenta coragem de insubordinação, mas que ao ser cortejado pela dona do bacana vira menino birrento e subjugado. Glória Menezes, por sua vez, faz aquelas madames que quer um roça em um quarto e sala de subúrbio, desde que a champagne e os banhos de piscina estejam garantidos. E por fim Tarcísio Meira estampa a pinta de galã que esconde furacões internos ao mesmo tempo em que encarna o ultraje do marido traído. Máscara da Traição é filme policial, e por isso o clima característico do gênero é essencial para que mergulhemos na intriga, o que é levado a cabo aqui com inteligência e sem tempos mortos - ainda que a forma do plano e detalhe simples, mas crucial, de conclusão forcem um tanto a barra. Máscara da Traição é mais um título que honra e representa a tradição do nosso melhor cinema policial.
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo
terça-feira, 4 de maio de 2010
longas brasileiros em 2010 (107)

(em 2009 - 315 filmes)
107 - A Banana Mecânica (1974), de Braz Chediak +
O capixaba Carlos Imperial tem grande importância na cultura de massa brasileira, sobretudo na música - da mesma Cachoeiro do Itapemirim de Roberto Carlos, esteve lado a lado do Rei Roberto e do Tremendão Erasmo Carlos no início da carreira e compôs sucessos como Pode Vim Quente Que Eu Estou Fervendo (co-autoria de Eduardo Araújo). Foi ator, cineasta, compositor, jurado de programa de calouros, apresentador, produtor cultural, e, mais que tudo, polêmico irreverente e abusado. No cinema dirigiu pouco mais de meia dúzia de filmes e atuou em cerca de 40. Como nesse A Banana Mecânica que produziu e Braz Chediak dirigiu. No filme ele é Dr. Ferrão, um psicanalista nada orotodoxo que leva suas clientes muito mais para a cama do que para o divã. Enquanto papa todas, pois tem borogodó, saliva por Rosy di Primo, a noiva cobiçada que recusa intimidades com o velhaco a não ser depois do casamento. Dentre os pacientes estão a tia da noiva, em quem ele dedilha o corpo como se fosse um piano erótico e um gay que ele quer transformar em hetero, no melhor estilo pastores evangélicos da atualidade. Pornochanchada das mais sem graça, Banana Mecânica se vale de soluções fáceis e em afirmações de estereótipos em busca do riso. Carlos Imperial empresta sua figura sui generis com a pança generosa e o cabelo na cintura, desfilando para lá e para cá em figurinos bem tipicos dos anos 1970. Mas se em Delícias do Sexo, que ele dirigiu, sua estampa casou como luva no personagem - ainda que o filme seja também muito ruim - aqui ele está alguns tons muito acima, como Maurício do Valle - grande ator - gostava de fazer em alguns papéis babentos e caricatos. Quem se sai melhor no elenco são os veteranos Myriam Pérsia e Ary Fontoura. De musas tem Rosy di Primo, Kate Lyra e Zezé Motta, todas lindas, ainda que em destaque mesmo só Rose, já que Kate desfila sem muita serventia e Zezé como empregada quase só serve para ser bolinada. Ao contrário de que muitos pensam e de muitos registros, Zezé Motta também fez pornochanchada - o outro filme é Um Varão Entre as Mulheres (1974), de Victor di Mello - e em ótimo debate sobre esse período na Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto, deu razão à musa Zilda Mayo quando essa disse que muitos atores e atrizes tem preconceito e escondem as participações que fizeram no gênero, afirmando que ela mesmo, Zezé, quase nunca fala desses filmes. Braz Chediak, que já tinha dirigido a obra-prima Navalha na Carne (1970) voltaria a encantar com as adaptações da obra de Nelson Rodrigues na década de 80. Esse Banana Mecânica, que fez sucesso com quase 300 mil espectadores, é bola fora diante do talento gigantesco que o cineasta já tinha mostrado e mostraria em outros momentos de sua interessante e importante carreira.
Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo
segunda-feira, 3 de maio de 2010
longas brasileiros em 2010 (106)

(em 2009 - 315 filmes)
106 - A Viagem de Volta (1991), de Emiliano Ribeiro *1/2
Obs.: não encontrei imagem do filme. Foto do diretor Emiliano Ribeiro.
O argumento de A Viagem de Volta é bom: focalizar os tratamentos de internação em clínicas alternativas ao formato psiquiátrico tradicional para dependentes químicos. E para compor a história da personagem de Clarice Niskier a produção fez pesquisa em várias delas, nesse filme que é uma espécie de docudrama e tem roteiro assinado por Emiliano e Nelson Nadotti. Mas é aí que a porca torceu o rabo, pois onde há boa intenção nem sempre há bom cinema. Clarice Niskier pede para o pai Nelson Dantas para interná-la em uma dessas clínicas depois que a amiga Sura Berditchevsky morreu de overdose na sua frente. Ela deixou uma filha pequena para trás, que vive com a avó Theresa Amayo, um de seuss pólos de conflito. Daí vai parar em uma fazenda, onde terá que conviver com pacientes com dramas muitas vezes maiores que o seu, como gente que roubou e matou por causa do vício, todos comandados por Anselmo Vasconcelos, ele também um ex-viciado. Esse A Viagem de Volta é construído tendo como eixo o tratamento da protagonista, e enquanto vemos sua relação com os outros colegas de confinamento e as sessões de análise com o líder comunitário, acompanhamos também alguns flashbacks sobre sua descida ao inferno antes da internação. Mas faltou a Emiliano Ribeiro pulso firme na condução da trama nessa sua estreia em longas, já que vinha de larga experiência como assistente de direção em filmes fundamentais como Em Família (1971), de Paulo Porto, Toda Nudez Será Castigada (1972), O Casamento (1975) e Tudo Bem (1978) - os três de Arnaldo Jabor. Por diversas vezes ouve-se que a vida naquela fazenda, que está sempre de portas abertas para quem quiser desistir e ir embora, não é uma colônia de férias. Mas, paradoxalmente, as imagens mostram que é isso que parece ser, pois vemos os viciados jogando vôlei e fazendo arte-terapia, porém sem o ranger de dentes que todo dependente passa para largar o vício - a Mel de Débora Fallabela em O Clone (2001/2002), de Glória Perez, pareceria a encarnação do demônio para a placitude daqueles personagens. Clarice Niskier, em estreia no cinema, já sinaliza o que será capaz de fazer nas telas, como será alguns anos depois com sua inesquecível Luiza em Amores (1997), de Domingos Oliveira. No elenco ainda tem a veterana Teresa Amayo com toda sua carga trágica e talento como a mãe opressora, e Anselmo Vasconcelos mostrando que é capaz de fazer qualquer personagem com a credibilidade de sempre.
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo
domingo, 2 de maio de 2010
longas brasileiros em 2010 (105)

(em 2009 - 315 filmes)
105 - O Caçador de Esmeraldas (1979), de Oswaldo Oliveira +
O cinema brasileiro dos anos 1970 foi múltiplo, com filmes de vários gêneros sendo produzidos, como os de fundo histórico e as adaptações literárias incentivadas pela Embrafilme e pela gestão de Ney Braga como Ministro da Educação e Cultura do governo militar de Ernesto Geisel. Esse O Caçador de Esmeraldas é um desses filmes, produzido por Oswaldo Massaini e que leva a assinatura da Embrafilme e do MEC. E é um daqueles mastodontes sem salvação e já de fundo perdido desde o início até o seu final. O filme é sobre a saga do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, que no século XVII deixa a família, arrebanha centenas de homens e se embrenha no sertão mineiro com a obsessão de trazer esmeraldas para a corte portuguesa. Durante a jornada, ele e seus comandados são atacados por índios, doenças, fugas, mortes, execução do próprio filho como traidor, e o encontro de turmalinas pensando ser esmeraldas. Todo esse entrecho poderia sugerir um filme épico de fortes emoções, mas, ao contrário, o resultado é de um tédio só. O roteiro assinado por Oliveira, Anselmo Duarte e Hernani Donato é de um desajuste sem par e com efeito constrangedor pela direção equivocada e sem pulso. Cenas que deveriam causar tensão, como os ataques dos índios e a queda de um integrante em um penhasco, não têm impacto nenhum, são burocráticas e parecem ter sido feitas por amadores sem talento e sem recursos. Nem Joffre Soares sobrevive ao Fernão Paes retratado, e o que se vê é uma expressão monocórdia do ator de ponta a ponta. O mesmo vale para o elenco estelar: Glória Menezes, Herson Capri, Arduíno Colassanti, Maurício do Valle, Patrícia Scalvi, Ivete Bonfá, Esmeralda de Barros, Sérgio Hingst, John Herbert e Tarcísio Meira - com chances maiores para o casal Roberto Bonfim e Julciléa Teles. Exemplo típico de como não se fazer um filme, O Caçador de Esmeraldas contribuiu para apressar a aposentadoria de Oswaldo Massaini. Felizmente, Oswaldo Oliveira se recuperou no filme seguinte, o deliciosamente sacana Histórias que Nossas Babás Não Contavam (1979), também produzido pela Cinedistri, mas dessa vez produzido pelo filho de Oswaldo, Aníbal Massaini Neto. O Caçador de Esmeraldas marca inicinho de carreira de Herson Capri no cinema e tem atuação da excelente atriz e musa da Boca do Lixo Patricia Scalvi (os dois na foto) em filme de época e fora dos apelos eróticos.
Cotações:
+ruim
* fraco
** regular
*** bom
**** muito bom
***** ótimo

